segunda-feira, 20 de maio de 2013

o corpo da menina

 

Não é só o estupro que destrói o corpo da menina. Acontece também quando ela tem doze anos, menstruada aos onze e de sutiã 44 aos treze. Acontece então também quando ela tem doze anos e sai sozinha na rua pela primeira vez e para sozinha no sinal pela primeira vez. Num sinal que nunca fecha, numa curva, onde às vezes não atravessa ninguém. Acontece então quando ela tem doze anos e três entre quatro carros que passam buzinam e gritam coisas que ela não entende. Quando a olham diferente porque ela tem peitos e tem cintura e raspa os pelos. Acontece quando ela passa as tardes comendo batata frita e bebendo refrigerante pra não ter mais cintura. Quando ela se veste com roupas largas de garoto pra não ter mais peito. Acontece então quando ela quer finalmente mudar essas roupas e agora ninguém olha e nem buzina e nem grita e nem nada porque ela é gorda. E depois que ela fizer dietas, botar uma blusa decotada e disserem que ela é bonita, ela não vai acreditar porque quando ela tinha doze anos três entre quatro carros buzinaram e gritaram alguma coisa pra ela, quando ela tinha doze anos e não pensava em ser bonita e nem era bonita de buzina de carro.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

E era bonita

Ainda se fosse feia... Mas era bonita. Olhos verdes e tudo o mais. Fumava pelo bem da pose, um atrás do outro. Em público, no início, com vinho em copo de plástico, e depois até sozinha, com o rímel nas bochechas, logo depois de acordar, com café puro. Às vezes colocava um arco no cabelo, e fumava. O arco e o cigarro eram a combinação perfeita, ela tinha certeza. Tudo junto, porque tudo junto era complicado, era uma pergunta na beira do precipício. Ela pensava que todos eles morriam por uma pergunta na beira do precipício. Ela se punha perto dos que tinham um violão, dos que cantavam músicas antigas, dos que falavam de filmes antigos e de livros do underground. Falava por citação e tudo era lindíssimo. Dançava com o pescoço inclinado para trás, os olhos à metade fechados, fechados o suficiente para lembrar as letras, abertos o suficiente para ver quem a via. Desses chegava mais perto, tocava o braço, a culpa é da cerveja, a música é tão boa, não é? Belíssima. Então com esses cantava inclinando o pescoço para frente. Inclinava o pescoço para frente a todos os que via que a viam. Pensava pode ser esse, mas esse nunca era.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Livros de colorir

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Eu fui uma criança com lindos livros de colorir e bons lápis de cor. Para minha mãe, eram objetos de preservação: eu pintaria apenas as cópias das páginas, com lápis vagabundos. Aqueles lápis caros, em caixas lindas, presentes de gente que vinha do estrangeiro, tinham sido feitos para o sono eterno. Jazem aqui nesta gaveta lápis de cor holandeses, japoneses, franceses. Os livros e os bons lápis seriam conservados para um futuro misterioso, para um cuidadoso que um dia surgisse e não deixasse os lápis caírem e quebrarem por dentro. Um artista sobretudo respeitador das bordas dos desenhos. A única cor que há hoje nos originais é um amarelado antigo e triste, o sinal de que nunca nenhuma criança passou por ali. Os livros de colorir fornecem a didática dos limites, ensinam as fronteiras. Quando não há mais borrões para fora, é o final. Significa que o ensinamento se completou. Aprendeu-se a respeitar os limites. Uma mão que aprendeu a não borrar não borrará nunca mais. Essa é toda a tristeza dos livros de colorir: ninguém entendeu que seu verdadeiro ensinamento é o borrão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Foi-se uma vez um bruxo

- Sim, diga-me.

- Me aconselha um livro de fantasia?

- Que fantasia você quer?

- Uma com personagens não-reais, mas...

- Eh! Mas...

- Só não queria o Harry Potter que não...

- Ah, tranqüila que Harry Potter não aconselho a ninguém!

A esse ponto vieram andando o bibliotecário e a menina em direção às estantes às minhas costas. Eu sorria ainda do modo com que ela encomendou um conselho de livro de fantasia. O bibliotecário me viu sorrindo e, provavelmente achando que eu era solidária ao seu mal-estar potteriano, me sorriu de volta trocando comigo um olhar presunçoso de literato: pff, Harry Potter... haha. Soubesse ele que eu estava ali naquele momento em grande parte graças ao Harry Potter, teria me caçado da biblioteca. É quase um horror dizê-lo em voz alta. Gostar de Harry Potter é fora da lei. Ele é um clandestino na estante, camuflado com dificuldade (afinal é um catatau de volumes) em meio aos maravilhosos herméticos da Grande Literatura. A Academia tem uma odiosa tendência a escorraçar o que faz sucesso. Os entendidos de Literatura Infantil analisam com olhos adultos e oferecem coisas que as crianças tantas vezes deixam pela metade. Depois começam a oferecer uma Literatura que a idade ainda não permite, que lêem com a obrigação da prova. Eu não gostava de ler até os dez anos. Com todos aqueles Machados de Assis e Josés de Alencar, teria continuado a não gostar de ler. E não creio que seja uma experiência idiossincrática. Você aí, admita. ADMITA! Nós, da geração de ‘90, estamos no mesmo barco furado. Uns mais esperançosos do que outros, nós esperamos a coruja na noite dos onze anos.

Hoje, dou a Machado a chance de ser a obra-prima que é, mas não dou a Harry Potter a derrota de se mostrar como a porcaria que dizem ser. É como descobrir que Papai Noel não existe. É triste. Dos livros muitas vezes não resta nada a não ser a impressão que deixou, a atmosfera do lugar em que líamos, a maciez do sofá, os pés para cima. De Harry Potter não me resta muito a não ser os pés para cima, a clausura no quarto até a última página, os amigos em vários cantos do mundo. Que fique assim. A adulta hoje cheia de não-me-toques não tem nenhuma autoridade sobre a criança que botou os pés para cima e leu. O cânone da Literatura Infantil não pode ser forjado a partir da Academia. O cânone da Literatura Infantil é pessoal e intransferível. Os sete volumes permanecerão intocados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ah, a revolução…

Não me pego cantando, com a mão no peito, os olhos fechados e a boca no vinho, músicas de revolução. Difícil me lacrimejarem histórias de ditadura, revoltas estudantis, cassetetes esfolando um e outro. Pecado, eh! Pecado... Burrice juvenil, que soe como soe. As pessoas são ruins, criança, a tua coragem escandalosa não salva o mundo da cinta. A tua blusa comunista nunca pôs feijão no prato de ninguém. Fosse homem, não faria crescer a barba. Mulher, não faria crescer os pêlos do sovaco. Resolve o grito? A mim nunca sucedeu. Pecado! Nunca tive mãe que ouvisse a gritos. Talvez eu hoje acreditasse em músicas de revolução. Vida e liberdade sempre me pareceram outra coisa, coisa longe da morte. Mas a cada um a vida como lhe parece. Gritar só me escalpelou a vida sem nada me dar de resultado. Coragem maior é a de calar, de fazer a tua revolução no silêncio. Não é de uma vez que se ganha. Não é de duas. Um grito tem sempre um fôlego. E um fôlego acaba no zunido de uma cinta.