quarta-feira, 25 de maio de 2011

Técnica literária da Felicidade

 

     “What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss - absolute bliss! - as though you'd suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?” ~Katherine Mansfield


     Fala-se muito sobre a dificuldade de escrever sobre a catástrofe, de representar artisticamente aquilo que é tão mau e tão hediondamente real que não pode ser diminuído por nenhuma palavra ou nenhuma tinta. Aquilo que gostam de chamar de “irrepresentável” ou “indizível” porque está destinado a permanecer eternamente alojado na experiência bruta, como se alguém tivesse esquecido uma faca dentro do corpo depois de uma operação.

     Mas e o indecentemente delicioso? Como representá-lo para que também não seja diminuído por palavras; para que, sobretudo, não pareça… bobo? Para que não seja um gritinho fútil e histérico de uma menina de quatorze anos diante de Justin Bieber… A alegria parece sempre tão tolinha... Boba, boba, boba… bobona eu. Como escrever o sol fresco sem que ele pareça uma luz clichê? E o verde das folhas sem que pareça sátira ou paródia árcadblisse? Eu que andei vendo um sol e umas árvores tão

(cadê a palavra… palavra…? … fico com lindas mesmo)

lindas hoje. Tirei uma foto por falta de jeito de escrever. (Pode ser dor de cotovelo, mas) desconfio de que a extrema felicidade e a extrema dor são egoístas, incompartilháveis, verdadeira e unicamente nossas, não podemos dividir nem que queiramos.

     Escrever a tristeza e o amor é muito fácil, as metáforas chegam, elas se apresentam como uma legião de dominós. A felicidade no entanto exige um talento absolutamente maior. Ela demanda uma técnica muito mais delicada. Como é que se faz um texto sorrir? Cadê a bochecha do texto pra doer de sorrir?

     Será que se pode encarar a felicidade, em vez de escrever sobre ela dessa forma enviesada, perguntando como escrever sobre ela? Porque, bem, isso é roubar. Perguntar o que fazer com a felicidade é não fazer nada com ela. É um jeito fácil e malandrinho de se livrar do tête-à-tête. Técnica utilizada repetidas vezes ao longo de diversos escritores (maus escritores, suponho) para fugir de um determinado tema – perguntar como escrever sobre. É colocar a dúvida para dissimular a incompetência. É o mesmo que preencher páginas e páginas com a inquietação de não ter nada o que falar. Falou-se algo, um espaço foi preenchido, umas palavras foram borradas e pronto, já está, pode-se mandar para o jornal do dia seguinte.

     Meu caso aqui é um tiquinho pior porque não tenho obrigação nenhuma de escrever com prazos, nem escrevo sob encomenda, então meus temas são de minha responsabilidade, preciosamente escolhidos (não necessariamente bem tratados). E eu pateticamente escolho escrever sobre a felicidade com essa técnica insuportável e vagabunda dos incompetentes que não cansam de recorrer à metalinguagens fuleiras...

     Essa angústia vem muito de a minha memória literária ser despovoada de narrativas de felicidade. (E todo mundo sabe que os iniciantes escrevem amparados em exemplos – seja pra fazer parecido, seja pra transtornar). De furor romântico, sim, de momentos alegres, talvez, de enjoada cafonice, com certeza, mas a grande parte sempre termina com uma súbita melancolia, com um balde de água fria, com a derradeira verdade inconsolável: a felicidade é ilusória, é um desodorante de prazo pequeno para a podridão, que logo começa a feder. Não é essa que eu quero.

     Como se fala da felicidade de exatamente agora? Não da felicidade infantil de outrora, essa felicidade inventada com cheiro de bolo de fubá, mas uma felicidade genuína, que se sente na hora, que tá aqui, estalando, berrando, que sai desembestada campos fora como um potro que acaba de cair da mãe. Uma felicidade que não pode ser do tipo que é ficcionalmente lembrada (a felicidade de algum passado), mas esta que simplesmente não pode ser lembrada porque está acontecendo, no delicioso gerúndio do presente… Esta que me veio hoje, numa quarta-feira mediana extremamente cedo pela manhã, assim do nada, pulando como uma pulguinha, surgida de nenhum motivo assim muito óbvio, e que destrambelhou a me comichar para sorrir - “I must laugh or die!”

     Dizer que se está feliz a ponto de chorar, isso é tão bobo, mas e se eu realmente estiver com os olhos chuviscados, como se tivesse acordado marejada de orvalho fresco para um dia lindo… toda brega… e se meus lábios estiverem realmente tremendo de tanto eu tentar controlar esse choro para não parecer tão patética? Há tanta coisa ruim no mundo e eu gastando lágrimas com felicidade! Chorar tem que ser por coisas bem mais importantes. Ai meu Deus, como sou fútil, que não vejo nada de mais importante do que isso!img077

 

    Boba, que bobona…

domingo, 22 de maio de 2011

Um insignificante domingo por semana

 

dog

      O sambinha meio pulguento dos vizinhos fica flutuando aqui no vale, a voz de um outro desce pelo vão da coluna do banheiro social, um fulano ensaia uma guitarrinha, alguém no andar de cima (ou será embaixo) fica falando no skype sem fones de ouvido e fico ouvindo essa voz encaixotada de eco digital – sem entender, o que é pior. Na Igreja tem missa e coro. Tudo meio longe, mas não longe o suficiente, e fico com esses zumbidos amortecidos, chatiiinhos... o som é leeeento... mole que nem um vira-lata se espreguiçando e bocejando. Zumbidinhos que não são isso, nem aquilo, tudo a meio tom, sussurrento... Um incômodo, domingo é um encosto que não deixa seguir adiante... Tanto pra se fazer e não dá pra fazer nada. Domingo é um rodo que empurra tudo pra segunda. Pra piorar ainda é outono aqui. Você sabe que as tardes de outono aqui são insuportavelmente velhas. A temperatura é boa, o sol é amarelado como foto velha, até o verde fica meio sépia, tudo é velho no domingo de outono. E esse sambinha encardido, mas que merda! É chato o samba dos outros. Você sabe que eu gosto de música, mas não a música dos outros, que invade aqui meu campo acústico sem eu pedir. Os olhos a gente pode fechar, virar pro outro lado, a gente não precisa ver. Mas ouvir é ruim, ouvir é involuntário demais pra quem não se concentra. Eu não consigo me concentrar ainda... É, ainda não consigo... Nada me interessa tanto assim a ponto de eu não ouvir. Eu fico chateada de não estar inteira pro Lobo Antunes. Não é muito esperto ficar com ele num domingo, mas às vezes a gente não tem escolha, você sabe. Às vezes tem de ser, como domingo tem de ser.


Foto: http://www.flickr.com/photos/szalik/

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os bichinho tudo tão aprendenu errado…

 

     Eu tinha obscenamente pensado em não comentar sobre a polêmica do livro aprovado pelo MEC que “ensina a falar errado” só porque ai... que preguiça... Mas eu sei (EU SEI, diabo!) que recuar é simplesmente

UMA INDECÊNCIA!

     Como foi muito bem esbofeteado pela (mais recente estrela youtubiana) professora Amanda Gurgel, é preciso falar sobre a Educação, é preciso fazer pela Educação.

     Este tumulto em torno do livro é um assunto que me concerne diretamente enquanto estudante de Letras, (possivelmente) futura professora e futura mãe. Mas é, antes de tudo, (atenção, clichê) um assunto que concerne a todos nós enquanto cidadãos. Então vou dar meu pitaco aqui também.

     Apesar de ser quase contraproducente separar a língua da sociedade, uma vez que ela só pode acontecer em sociedade, me incomoda – ou melhor (mesmo?) incomoda-me – um tanto o borrão entre conceitos estreitamente lingüísticos e questões político-sociais. É obviamente claro, como já disse, que os dois se misturam forçosamente já que a língua é um objeto político-social, mas quando se entra no vocabulário “certo” e “errado”, estejamos atentos: há estações se encrencando aí. Primeiro porque certo e errado são da ordem do metafísico, da complexa Verdade pessoal e intransferível de quem está falando, de quem detém o poder no momento; ou seja, certo e errado pressupõem sempre um ponto de vista.  Por isso, a troca muito bem ajustada de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado” (como sugerido pela autora) vem, entre outras, de uma linha da teoria linguística, encabeçada por Noam Chomsky, da Gramática Interna, que estuda a língua antes de qualquer picuinha social, como função humana (como respirar, comer, andar…). Isto é, considera a linguagem como faculdade própria e inata de todo ser humano, que permite à criança o desenvolvimento natural de uma gramática interna, de acordo com a língua a que é exposta (e que não é, certamente, sempre a padrão). Aqui, todas as línguas e variedades intralingüísticas são colocadas “cientificamente” em pé de igualdade, já que toda gramática possui uma lógica interna inquestionável (mesmo – pasmem! – aquelas diferentes da norma culta). Nenhuma língua é burra. Não tenho nenhuma pretensão de explicar Chomsky a ninguém nestas linhas tão singelas (nem em muitas linhas, se fosse o caso), estou só apontando para um fato linguístico. É um contrassenso, sob o ponto de vista da Linguística, dizer que alguém fala errado ponto. O que podemos, talvez, dizer é que se fala errado em relação à norma culta padrão. Portanto, falar “os peixe” na Academia Brasileira de Letras é inadequado, mas é perfeitamente adequado num churrasquinho em que esse seja o hábito do grupo de pessoas ali presentes e até, em alguns casos, firmemente recomendável. Pronto, é só isso.

     Quanto às politicagens, é preciso ter em mente que, se todas as línguas e variedades possuem uma lógica interna inquestionável, servem ao seu propósito comunicativo e constituem um código entendido sem problemas e passado de geração em geração num determinado grupo social, então é claro que a Variedade Padrão não é a padrão simplesmente porque linguisticamente/gramaticalmente é a melhor, mas porque é aquela falada pela “melhor” classe, ou seja, pela elite, pelo grupo que está no poder. Isso é um fato, não é discurso de direita ou de esquerda. O esquerdismo e o direitismo entram quando a lógica (dubitosa) nos leva a concluir que legitimar a variedade das classes mais baixas seria passar o poder de mão, num movimento “petista” do mal – como se houvesse neste livro um grito socialista: entreguemos o país ao mulato side of the force! A classe A entende que começa a perder o prestígio quando a sua variedade linguística começa a perder o prestígio. Mas, entendamos, o prestígio não está na língua, está no dinheiro ‘mermo’, ‘mermão’. A língua é apenas mais um apetrecho que marca o nosso lugar na pirâmide social, junto com as roupas que vestimos, o meio de transporte que usamos, os restaurantes em que comemos, os cachorros que temos e as petshops a que os levamos. Não importa se toda a sociedade de repente começar a marcar os plurais só nos artigos (o que não vai acontecer, pelo menos por agora), quem mora no Leblon vai continuar morando no Leblon, quem mora na periferia vai continuar morando na periferia. Portanto, não criemos cânico! Se este é o medo, não é o reconhecimento das variedades linguísticas que vai dar, de fato, voz às massas.

    Além disso, de todo modo ninguém quer desprestigiar a variedade padrão. Destitui-la de pompas e circunstâncias, de ares de tanta importância e medalhas de honra, pode ser, mas jogá-la no cemitério de línguas, não. (Talvez Marcos Bagno, mas isso é outra coisa).

     É evidente, ponto pacífico, que o preconceito linguístico reflete o preconceito social. Identifica-se o lugar social de alguém a partir da sua fala, dos seus “erros”, das suas cadências de sotaque. No Brasil isso é extremamente forte e, sobretudo na escola, não podemos passar por cima das variedades faladas pelos alunos, não podemos deixar de reconhecê-las e de ser pacientes com elas. Não podemos, principalmente, esquecer que os professores tantas vezes falam uma variedade que também não é a padrão (Houston, we have a problem!). Ignorar essas variedades e apagá-las com a norma culta é, antes de tudo, uma violência. A variedade padrão muitas vezes é praticamente uma língua estrangeira para muitas pessoas. Se estudar gramática já é chato para quem nasceu na classe A (não sejamos hipócritas!), imagine para quem nasceu na classe Z... é um negócio pavoroso! O mais sensato a ser feito é apresentar a esses alunos modos de dizer, especialmente aquele aceito pela sociedade A, aquele que é cobrado pelo Vestibular, aquele que é cobrado em entrevistas de emprego... enfim, aquele que impõe respeito, aquele que é necessário dominar para ser levado a sério perante a sociedade dominante (que, não nos enganemos!, é a classe A). Na verdade, essa “conscientização linguística” não deve ser feita só com esses alunos, mas também com os que já falam de berço a língua padrão, porque não adianta tomar cuidado com a auto-estima daqueles se estes vão continuar apontando o dedo preconceituoso na cara dos outros. Sim? Ótimo. A escola deve, sim, mostrar a existência dessa diferença de adequação/inadequação diante de contextos diversos  e ensinar “olha, a variedade adequada na escola e na sua vida profissional é a padrão, é essa aqui da Gramática do senhor Bechara, que vocês vão aprender agora”. Mas também é preciso que os professores estejam plenamente capacitados para expor este assunto de modo lúcido e competente, já que não é (como estamos vendo com esse burburinho todo) nada simples, para que a língua não comece a parecer um sarapatel de cachorro doido. Este me parece ser o desafio maior.

      Agora sobre o Marcos Bagno. Ele é professor da UnB, linguista inflamado e radical quanto à questão do preconceito linguístico, e um autor pelo qual todo aluno de Letras passa obrigatoriamente logo na Introdução à Linguística, arrancando os cabelos (principalmente porque este assunto não é introduzido na escola e constitui, sim, um negócio complexo e de extrema importância, cuja apreensão não é tão fácil e óbvia. Demanda, sim, um tempo e um conhecimento menos superficial de linguística). Aqui está o link para o comentário dele sobre este livro – a favor do livro, é claro, e azedamente contra a oposição. Acho o texto dele bastante divertido e, bom, ele fala basicamente as mesmas coisas que eu falei aqui em cima (obviamente bem melhor e com bem mais autoridade), mas o que sempre me incomodou nele é que ele cria um preconceito ao revés, isto é, em relação à variedade padrão, e acaba caindo na própria armadilha, come o próprio rabo etc. Façamos discursos inflamados, sim, acho que têm seu mérito, mas muitas vezes eles perdem pontos, MUITOS pontos, e tornam a argumentação um pouco mais fraca. Não é denegrindo a língua padrão que vamos ganhar nenhuma briga.

     Para “terminar”, finalmente (benza Deus), está tudo muito feio, muito grosso e muito desrespeitoso nessa discussão. Na escola, levantamos o dedo e esperamos que o professor nos passe a palavra. Com bons modos, levantemos o dedo e nos dirijamos com um mínimo de respeito à Educação. Não saiamos cheios de dedos e propriedades pra cima de algo que não entendemos. Questionemos, sim, mas com um mínimo de bom senso e respeito.


O GLOBO: Haddad defende livro, mas Enem exige norma culta; Haddad falta a audiência do Senado sobre livros didáticos e líder do PSDB pede recolhimento de obras com erros; Procuradora da República prevê ações contra uso de livro com erros pelo MEC; autora se defende; Para presidente da ABL, livro adotado pelo MEC valida erros grosseiros.

terça-feira, 17 de maio de 2011

I believe I can fly–Travessuras no céu

 

“Il faut être léger comme l’oiseau et non comme la plume”* ~ Paul Valéry

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     Andei uma época da minha vida querendo ser piloto de avião. Aeromoça não, piloto mesmo. Mas bom... para o bem e saúde geral de muitos viajantes, acabei indo estudar Literatura, que no fim das contas também não deixa de ser um jeito de estar nas nuvens.

     Minha palavra preferida era Varig. Eu gostava de viajar só por estar a bordo. Hoje isso mudou um pouco porque só sendo muito pancado da cabeça pra gostar de estar a bordo na classe econômica.

      De todo modo, voar e ideias afins sempre povoaram a minha afeição. Portanto, cama elástica, dança de salão e cavalos são super bem cotados por aqui. Tudo no mesmo campo semântico do ir pelos ares. Se eu fosse circense, seria trapezista. Simpatizo particularmente com teleféricos também.

      Não gosto muito de cair, no entanto.

     Veja bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: cair é propriedade de um outro departamento, o buraco é bem mais embaixo. Eu não gosto nem de tropeçar. Tudo bem que estar no ar já traz em si um cair em potencial, mas eu confio em aviões, balões e parapentes (sobre a asa-delta ainda estou refletindo). Agora… atirar-se em queda-livre eu acho mais medonho. Nem cabum né nada comigo, me borro toda. Bungee jumping está na lista de afazeres, mas… A graça do ar, pra mim, não está na adrenalina de continuar vivo literalmente por um fio, de mergulhar na morte por estatelamento e ser (se Deus quiser) puxado de volta, de entregar-se de corpo e berros ao abismo V = g x t. Como diz um amigo, live fast, die young, fuck yeah! Não descarto absolutamente, que eu também sou meio lelé da cuca, mas talvez em outra ocasião. Hoje estou pensando em outro tipo de sensação.

GOPR0766     Quando eu fui voar de parapente, confesso que também pensei “radicaaaal!” e só a ideia de estar parada de cara pro abismo da Pedra Bonita já me parecia o suficiente pra me elevar ao estágio absoluto da coragem. Chegar ao voo de fato, então… Kemi, a destemida. Contudo, uma conversa com um entendido do assunto tirou alguns “a” do “radicaaaal!” e fiquei só com um “radical” mais singelo, mas nem por isso menos destemido. Realmente, algumas pessoas disseram que o paraquedas é mais irado. Sei lá. Como esse mesmo entendido do assunto me explicou, a vibe é diferente. Disse ele assim: “a onda do voo livre é outra, tá muito mais pra curtir o visual, em paz, uno com a natureza, do que adrenalina ou coisa do tipo faca na caveira”. E então, depois de ouvir isso, curti ainda mais a onda do parapente porque me pareceu tão sossegado, tão (why not?) poético.

     Ok, ok, tô ouvindo vocês chiando… “sossego a 520 metros de altura HAHA que desmiolada”. Mas é. Acreditem. Não sei se por eu ter uma quedinha por alturas ou pela segurança absurda que o instrutor passa ou sei lá eu o quê, mas medo é o que menos seDCIM\100GOPRO sente lá em cima. Tá, também não vou dizer que não dei uma tremidinha ali na pista porque seria parecer machona demais, mas passados os primeiros gritinhos da decolagem, os vinte minutos que seguem são nada menos do que sensacionais. Estar lá em cima, sentada no vento, sobrevoando a montanha e o mar, compartilhando do espaço dos pássaros e sorrindo sem parar é… Não vou ficar enchendo esse parágrafo de adjetivos da ordem do espetacular, vocês podem preencher isso sozinhos abrindo o dicionário. (Má blogueira que bota os leitores pra trabalhar…).

     De todo modo, para quem me parabenizou pela coragem… Bem, se considerarmos que buscar a liberdade é um ato de coragem e que a felicidade é valente, até que sim.   

      Uma vez me perguntaram se eu tinha vertigem nas alturas. Como podem ver, obviamente que não. Eu tenho medo é do rasteiro…


* ”É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”, Paul Valéry

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Uma infância errada…

 

     Nunca naveguei bucolicamente em córregos de carás dourados. Nadava de peito nos afluentes caudalosos de carros e faróis de freio. Nunca subi em árvore pra pegar fruta. Me empoleirava no carrinho de supermercado e catava biscoito de chocolate das prateleiras. Nunca corri por campos impressionistas com animais e nem assustei galinhas. Levava meu cachorro pra passear aqui na rua mesmo e os dois nos espantávamos, contemplativos, vendo um miquinho passear pelos fios de telefone. Nunca senti os cheiros dos doces da avó que nunca tive nas visitas de domingo que nunca fiz. Me regalava com o pudim da padaria ao lado de casa. Nunca galopei na correnteza que nem cavalo solto. Brincava de rema-rema-remador no sofá da sala com a empregada.

     Nunca vivi de infância lobateanamente prometida. Vivi de um não sei o quê urbano que parece não servir pra história, nem sonho e nem delícia.

     A literatura repetidamente me frustra com infâncias rurais oníricas, onde eu não estou… será que não fui criança, Deus meu? Ah! Que horror ter sido desviada da infância certa! A infância certa, aquela que dá colo e aconchega, é rural, tem cheiro de bosta de cavalo, é molhada de esguichos de córrego, é pulguenta e infestada de cicatrizes fundas. A infância certa sobe em árvore e come fruta do pé. A infância certa tem quintal. A infância certa tem sempre oito anos. A infância certa tem avós gordas e cozinheiras. A infância certa passa férias em sítios nas Minas Gerais. A infância certa pune todas as outras com seu tom de sépia bucólico e rústico e árcade, tão perfeito… se agasalha em lugares-comuns e neles permanece… inocência querida da infância perdida!

     Ah… pobre da minha infância errada…

 


Imagem: Renoir, L'enfant au fouet, 1885