quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Fundilhos de memória

 

      Eles falam de música, de artistas, mortos ou vivos, jovens ou velhos, de artistas, melhores ou piores, vendidos, vendáveis, sei lá eu. Uma cartilha de nomes e acordes. Eu não digo nada, não sei nada... de muita coisa. Nem de literatura eu sei grande coisa, quando eu deveria saber. Saber cansa, não sei como minha sobrinha faz caber tanto de tanta coisa em seus dez anos. Saber consome vários decibéis de memória e eu não consigo nem lembrar, na bancada da cozinha, que tem que deixar a cebola ficar transparente na panela primeiro, antes de misturar com a comida. Alzheimer precoce, eita ferro, se me colocarem Mario Quintana na frente é capaz de eu não saber mais quem é. É verdade, meu poeta mais querido não me veio às idéias quando a Marie me pediu poetas brasileiros. Veio só depois, e a partir de Proust, que horror, porque ele traduziu Proust pra português. Talvez eu lembre mais de Proust do que de Quintana, apesar de ter dedicado doces horas a quintanares, porque Proust é aquilo de que sempre se lembra sem nunca se ter lido. Que horror. Acho que perdi tudo, centenas de árvores desperdiçadas em papel, no fundo do meu armário, no meu quarto, no Brasil. Tudo o que não trouxe e que não coube nos meus vinte e um anos, perdi tudo. Trouxe Budapeste, mas acabei emprestando pro Paolo e não sei o que foi feito dele. Perdi Budapeste. “Ninguém deveria debochar de quem se aventura em língua estrangeira...” E o resto? Perdi Budapeste. Que terror. E esses escritores migrantes que estou prestes a tentar estudar, eles também perderam suas coisas? A gente nunca perde nada, dizem. O que nos acontece fica em algum fundilho, daí vêm os traumas, os tiques, o estilo, num subconsciente qualquer, sei eu? E enquanto ainda não acumulei novas árvores no meu armário, no meu studio, na França, fico sem nada? Qual é o nome da autora que escreveu Un plat de porc aux bananes vertes? Era esse mesmo o título? Ah, não era uma autora, era um casal... Ah, sim... E o que foi que li de Corneille? Só sei que era um quadrado. Assim, sem eira nem beira...

2 comentários:

  1. Não foi uma troca injusta esta a da sua memória, embora ache Quintana mais charmoso.
    Estilisticamente falando.
    =)

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  2. Se eu algum dia tivesse lido Proust, seria até chique... Mas não...

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