terça-feira, 17 de abril de 2012

Empreendedorismo literário

A palavra da pauta é empreendedorismo, que carrega no calhambeque toda a família buscapé: inovação, mudança, originalidade, risco, loucura, coragem. Todo mundo tá lendo a biografia do Steve Jobs, Eike Batista só pensa em inovação, os publicitários brasileiros tão bombando nos prêmios de criatividade, o Brasil deu que deu pra investir em pesquisa, pra investir no jeitinho.

Todos sabemos que se destaca quem descobre, entende ou cria um negócio novo, no esquema das três maçãs, Adão, Newton e Jobs. Cada um no seu galho, todo mundo quer dar novos respiros ao próprio campo de ação, e não é que seja antes pelo bem desse campo de ação do que pela autopromoção, por um nomezinho na História... E não há nenhum mal nisso, diga-se de passagem (que nem a história do voluntariado, que tem gente que critica porque o outro tá fazendo só pra botar no CV etc; eu não critico, pelo menos tá fazendo andar pra frente, porra. E vê se levanta também e vai fazer. Palhaçada...). Foi só pra criticar a tradição artística meio chulé anterior e pra “fazer refletir sobre a arte” que o Duchamp assinou aquela porcaria de penico? Não, né? Ninguém se lembra de nenhum nome de trovador da Idade Média (até porque era tudo igual mesmo e ninguém assinava), mas todo mundo já ouviu falar do trio ternura Dante, Petrarca e Boccaccio (apesar de não podermos afirmar que eles tivessem plena consciência, ali no final da Idade Média quando a figura do autor ainda era meio desprezadinha, da importância que iriam tomar).

Ninguém estuda o que é igual na Universidade; estudamos aquilo que tem seu valor de originalidade, de ruptura, e acabamos sem conhecer aquilo com o qual essa coisa maravilhosamente nova rompeu, pra início de conversa, o que torna as coisas bastante abstratas. Então, paradoxalmente, ficamos repetindo uma historiografia literária cheia de monumentos de ruptura (sabe-se lá exatamente com o quê) até alguém descobrir (e se tornar uma estrela da Teoria!) aquela história de “kafkianos antes de Kafka” – e você pensa que realmente deveria ter ido fazer faculdade de estatística, que é muito mais exata do que literatura.

Os aspirantes a escritor, sem conseguir escrever uma história simples e boa, arrancam os cabelos pensando que sua única solução para a glória (provavelmente póstuma) é escrever algo mirabolante, mas que Joyce e Virginia Woolf já existiram. O aspirante a escritor passa então à glória bastarda, a do best-seller, mas já existiram triunfalmente elfos e hobbits, bruxos e trouxas, já existiram infelizmente vampiros fosforescentes. O aspirante a escritor pensa que nasceu tarde demais. Ele começa a fazer experimentações de como bater com a cabeça na parede e de como torturar o Word com coisas. Será publicado alguma hora. Ninguém mais ousa recusar empreendedores literários por medo de serem chamados de críticos imbecis num futuro próximo. A crítica ruim é necessariamente imbecil... há que se ver potencial em todo espetáculo débil de teatro, em todo penico assinado num canto de museu. O crítico tem que ser prafrentex e iluminar um hermetismo qualquer. O crítico também é a figura que quer a autopromoção, ele quer ser dotado da visão. Feliz do aspirante, não terá que esperar até a era póstuma. De todo modo, também acontecem coisas estranhas com os póstumos. Os póstumos são descobertos no fundo de uma estante empoeirada de biblioteca por estudantes de mestrado ou doutorado que precisam de um autor obscuro pra conseguir estudar alguma coisa que ninguém estudou ainda...

Diferentemente do empreendedorismo empresarial, o empreendedorismo literário não dá resultados imediatos (ou relativamente rápidos). De modo geral, o investimento em inovação literária dá lucros a longuíssimo prazo e o investidor tem 80% de chances de estar gelado de tão morto quando vierem os frutos, através desse estudante de mestrado e doutorado, depois de passar uma vidinha de mendigo. Mas a literatura não precisa sempre de coisas mirabolantes, a literatura precisa de boas histórias. Ela está cheia de boas histórias, mas, diferentemente de outras áreas, uma boa história a mais na literatura não é algo medíocre. É algo que talvez esteja em falta, em meio a tantas experimentações espalhafatosas e enfadonhosamente metalinguísticas... Escreva um bom soneto. E bastará.

4 comentários:

  1. Akemi,

    Mais um texto excelente que você publica aqui no Tabuleiro. Muito obrigada por expressar opiniões de forma tão habilidosa, coerente e bem estruturada. Gostei, particularmente, do trecho em que você deliberadamente diminuiu o tamanho da fonte para criticar aqueles que criticam a participação de outros em trabalhos voluntários, mas não movem um dedo para melhorarem coisa alguma. Concordo! Ainda que a motivação não seja a mais "nobre" e "pura" porque haverá a contrapartida de uma menção no próprio currículo, pelo menos essa pessoa teve iniciativa e se interessou por algo prático. Não ficou inerte reclamando da vida, do mundo e de todos.
    Quanto à questão de só estudarmos as rupturas no âmbito das artes, em geral, e da literatura e teoria literária, em particular, creio que estamos passando por um momento de transição nesse sentido. Embora estejamos sempre em busca de algo novo, seja algo inteiramente original ou que ficou oculto ,seja lá por que motivo, ao longo da história, acredito que haja espaço hoje para se estudar aquilo que era continuidade e não ruptura em algum momento passado.

    Então, chegamos à outra questão levantada em seu texto: devemos estar abertos a todo e qualquer tipo de manifestação "artística" que se intitula inovadora e vanguardista? A minha resposta para isso é um grande e sonoro: NÃO!!!

    Só porque algo é "pop" não quer dizer que seja artístico ou inovador. Outro dia, tivemos uma discussão a respeito da inovação artística no âmbito da música em uma de nossas aulas. A professora defendia que não podemos ter preconceito nem juízos de valor a respeito do que pode ser considerado "boa" música porque isso é muito relativo. Desculpe, mas discordei imediatamente: é claro que, não só podemos, como temos preconceitos e emitimos juízos de valor sobre tudo e todos o tempo todo. Ela rebateu dizendo que músicas que em outras épocas ,como "Um biquíni de bolinha amarelinha", foram consideradas de baixa qualidade fazem o maior sucesso hoje. Retruquei que o fato de fazer sucesso não garante a qulidade da música e cada um tem direito aos seus preconceitos, desde que eles não se tornem fobias ou discriminações. Acho uma hipocriasia imensa do "politicamente correto" essa noção de abertura total.

    Outro exemplo que sempre dou é o dos "Poetas Nômades" que fazem ponto em frente às saídas do CCBB. Os caras, em geral alunos do IFCS, se julgam excelentes poetas, inovadores, perspicazes, geniais. A estratégia de venda deles consiste em abordar pessoas que saem do CCBB com a seguinte pergunta: "Você gosta de poesia?" A pessoa, desprevinida, responde que sim. É então que o "poeta" mostra orgulhoso um de seus livretos com poesias inéditas que ele publicou de forma alternativa (provavelmente pela xérox do IFCS)e pede uma pequena contribuição para aumentar a tiragem dizendo: "Não tem preço, cada um dá que puder ou o que achar que a poesia merece". A pessoa dá R$2 para o cara e sai com o livrinho. Em um momento posterior, percebe-se que há vários erros de português nos poemas e que muitos não fazem o menor sentido. Não se tratam de textos inovadores ou de rupturam, são simplemente poemas muito ruins! É preconceito? Com certeza e não abro mão de ser preconceituosa nesse sentido porque não sou obrigada a aceitar tudo que empurram para cima de mim. Sou seletiva mesmo e não estou disposta a entrar em um campeonato de vale tudo, valeu?

    Sinceramente,
    Mariana

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  2. Correção: *ruptura

    P.S.: Também gostei da referência às três maçãs e dos homens associados a elas: Adão, Newton e Jobs, cada qual em seu devido galho. Analogia perfeita, mandou muito bem!

    Mariana

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  3. Uau, Mariana, obrigada pelo feedback!

    Sobre as maçãs, foi um roubo! Era uma piadinha que estava circulando no Facebook na época em que o Steve Jobs morreu...

    Beijos

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    1. Comentei com a Beth sobre o texto e ela disse ficou faltando uma maçã na história, a Apple Records, não conheço. Enfim, não sei se vi essa piadinha que rolou no Facebook, talvez tenha visto e não estou lembrada, mas você colocou "cada um no seu galho", não foi? Galho/ramo/maçã: tudo ligado.

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