Era porque estava ficando cada vez pior e ele não queria ficar mudo. Senhor Kojima me disse que poderia ficar mudo. Ele me disse que se eu não lhe desse as aulas ele poderia ir dando backspace na língua até perder o lé e o cré. Na verdade, ele não me disse isso, disse apenas, rindo amarelo entre os erros – desconfiado, mas sem saber o que exatamente não ia bem – que estava ficando cada vez pior e que, bem!, não podia ficar mudo.
Os ombros pareciam querer ir em direção um ao outro, como se precisassem se encadear na frente do peito para embarreirar a saída de coisas que ele não podia esquecer. Já tinha esquecido coisas demais e agora não podia ficar mudo também. Os dedos entrecruzados com tanta força que os nós ficavam vermelhos, de tanta vergonha. Me disse que quando era jovem, não era tão ruim. Agora que estava ficando bem velho... é que tudo estava indo embora. Não era só o português, era sua própria língua também, além de todo o resto... ele riu para os joelhos. Sabe?, ele riu para mim. Eu não sabia. Eu não fazia a menor idéia. Mas achava que se eu havia entendido tudo e que se ele me entendia também, é porque as coisas não estavam tão más. Acha?, ele afrouxou os dedos. Sim. Ele deveria ter perguntado se eu compreendia. Mas essa palavra, ele já não conhecia mais.
Eu não sabia o que fazer com o senhor Kojima. Era um dos meus primeiros alunos, o único adulto e o único estrangeiro, o único com fobia de ficar mudo. O que ele mais gostava era de ler em voz alta, porque obrigava ao som e ele gostava de se ouvir dizendo palavras dos outros. Ele lembrava a primeira lição, a identificação das letras e a sonoridade das sílabas. Gostava de repetir aquilo que sabia bastante direito. E fazíamos isso sempre, para que ele ficasse contente. Apesar de a cadência das frases não ser a boa, às vezes eu deixava continuar, porque era uma cadência tão dele e porque a satisfação de cada pequeno músculo em seu rosto, por eu não tê-lo corrigido, me faziam perder o fôlego para corrigir o que quer que fosse. Eu não era uma boa professora. Compensava em cima das crianças. Com elas, era monstruosa. Nenhuma delas arriscaria esquecer a língua quando ficasse velha, porque do terrorismo nunca se esquece.
Eu quase não tinha forças para passar à interpretação do texto, porque se a sílaba e o som ainda andavam grudados nas lembranças do senhor Kojima, o som e o significado já se haviam desgrudado. Ele já não sabia o significado de muitas palavras. As palavras eram apenas som, que não faziam referência a mais nada, a não ser à sua própria voz, enquanto ele as pronunciava. Ele falava cada vez menos. Trocou bom dia por olá, olá por oi, e oi por um sorriso singelo. Tentei todo tipo clássico de pedagogia, todo tipo alternativo, jogos, pedi conselhos, falei com lingüistas, psicólogos e psiquiatras até que vi senhor Kojima esquecendo a palavra eu. Perguntei se ele ainda falava sua língua materna e ele balançou a cabeça em desentendimento. Senhor Kojima ficara surdo, também. Eu não sabia o que fazer com ele. Ele riu, dandinou a cabeça e eu entendi: é, acabei ficando mudo mesmo!
Se inclinando em reverência e agradecimento, deixou o dinheiro da última visita na minha mesa e foi embora.
Maravilhoso, filhotinha.
ResponderExcluirEste post me remeteu a uns tempos atrás, quando você andou ministrando umas aulinhas de português aqui em casa. Claro que com as devidas diferenças.
Agora é aguardar os excelentes comentários do Pacha.
Cadê o Pacha, hein?
Como deve ser perder pouco a pouco a liberdade que a nossa língua nos permite? E como deve ser perder a nossa própria língua materna em detrimento de outra? Tentar evocar as palavras e elas serem um monte de almofadas vazias, só com a capa do som, sem qualquer significado? Não sei se esta história é verídica, não sei como deve viver o pobre Sr. Kojima, tão longe de sua cultura a ponto de esquecer seu idioma. Deve acontecer muito é verdade, por isso é comum formarem-se comunidades e guetos, numa tentativa desesperada de proteger um rebanho volátil como a língua mãe, por exemplo.
ResponderExcluirQueria destacar vários trechos da crônica, mas me acho sempre muito piegas fazendo isso.
Um beijo e continue escrevendo!
P.S.: Bebel, obrigado pelo "execelentes comentários", muito gentil da sua parte. Acabo me achando um intrujão às vezes. =/
Intrujão, Pacha? Ah, não, de jeito nenhum.
ResponderExcluirSeus comentários são sempre maravilhosos. Gosto muito.
beijo pra você, Pacha