quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Meu nome é Akemi, eu estudo Letras e não falo japonês

    
Dois faladeiros profissionais
    Puxar papo, começar uma conversa fiada, iniciar-se na ladainha com um desconhecido ou semi-conhecido pode ser algo terrível para algumas pessoas, em algumas situações. Às vezes encontramos um faladeiro profissional e temos sorte se a conversa do sujeito for boa. Mas, em geral, mesmo as pessoas mais falantes e conquistadoras de público podem passar por alguns perrengues – imagine o resto de nós, pobres tímidos, introvertidos acanhados! É normal, simplesmente de algumas perguntas não é fácil de fugir.
     Por exemplo, se uma menina se chama Maria e estuda Direito, um faladeiro vai se virar bem, rodar a baiana de algum jeito aleatório y ya está! Um tímido vai continuar tímido e pedir outro drink, quem sabe fazer um comentário débil sobre a qualidade da cachaça. Porém, se uma menina se chama Akemi e estuda Letras... As mesmas perguntas vão coçar entre os dentes de um faladeiro e de um tímido, e eles terão de ser absolutamente fortes para não fazê-las (o que é mais difícil para o tímido, já que sem elas, suas opções de assunto diminuem consideravelmente).
     (Para que fique claro o que vem a seguir: eu não me importo de responder a essas perguntas depois de ter um mínimo de intimidade com a pessoa, porque sei que podem ser curiosidades genuinas. Mas logo de cara, assim, de sopetão… dude, please… no)
     Se alguém se chama Akemi, significa (muito provavelmente) que ela tem olhos puxados. Então, o que acontece é que antes mesmo de o sujeito perguntar como ela se chama, perguntou qual é sua ascendência e se ela fala japonês. E aí, cê fala japonês? – é a pergunta que eu mais ouvi na minha vida inteirinha, seguida de interjeições de assombro quando eu digo que não, eu não falo japonês. Pô, que pena, é tão irado! (Zzz…) Quando o meu interlocutor se recuperou do susto por eu não falar japonês e perguntou, finalmente, o meu nome, ele pergunta o que significa. No meu kanji, significa alegria e beleza. Aqui, a depender das intenções do indivíduo, ele poderá me dizer bem sensualmente, como um pedreiro, “puxa, seus pais acertaram mesmo”. Se eu não tiver virado as costas, a conversa vai continuar com a outra pergunta clássica do questionário básico – o que você faz da vida?
     Bem, eu sou estudante de Letras.
BUM!
    Se a pessoa não for alérgica a livros e não sair correndo, eis o que me atinge:
 
     Qual é o seu autor favorito? Que tipo de livro você gosta? O que você me recomenda? E o que você pensa em fazer depois, vai dar aulas mesmo?
 
    Que não se enganem: 90% das minhas respostas será uma mentirinha mais ou menos bem ensaiada. Veja, não há pergunta mais desanimadora para um estudante de Letras do que qual é o seu autor preferido. É quase como e aí, cê fala japonês?
 
     Eu não falo japonês, eu não tenho um autor preferido e não tenho nada para te recomendar que realmente vá te interessar. Simplesmente nada vem à cabeça em momentos como esse e nenhum dos meus autores mais queridos parece suficientemente preferido. Minha professora sabiamente me aconselhou a ter umas respostas de antemão para murmurar rapidamente entre os dentes antes de mudar radicalmente de assunto: Paulo Coelho ou qualquer coisa do tipo. Os interlocutores mais intelectualoides também gostam de ouvir Clarice Lispector ou Fernando Pessoa. Na dúvida, se quiser causar aquela impressão, lanço um Camões. Mas se quero que a pessoa realmente saia com o rabo entre as pernas, respondo com um seco, amargo e definitivo Kafka, Kafka é o meu autor preferido, e peço um drink tailandês com um verme ainda vivo, pra chupar com canudinho. Aí até um tímido ia preferir que eu me chamasse Maria e estudasse Direito.
Eu não falo japonês, mas eu sou legal…

5 comentários:

  1. Ai, meu Fernando...


    Nunca me perguntaram meu autor preferido , nem me pediram recomendação. Talvez por eu ter andado muito com povo de letras e humanas no geral. Mas quando eu falo que fotografo muita gente pergunta se eu posso indicar uma câmera, ou quantos megapixels é preciso pra uma foto " boa mesmo" .

    Aprende japonês, Kemi. É tão irado...

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  2. Hahaha excelente! Mas isso acontece em qualquer área e com qq um...Só por ser William, não significa que é o Wallace e só por ser engenheiro de computação eu saiba concertar a sua impressora... ¬¬ Mas otimo post!

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  3. Bem, eu a vitimizei perguntando o que seu nome significava, e paguei o preço caro por isso: ser motivo de piada entre você e Bárbara.
    Beleza, superei o constrangimento e ainda dei uma ótima sugestão; que você bem poderá vir a usar!
    Mas realmente ter traços étnicos bem marcados ou um nome diferente, ou ainda uma profissão não muito comum, causa nas pessoas algumas reações engraçadas (para não dizer patéticas).
    Pense nas massagistas, coitadas, vítimas do preconceito gerados pelos falsos anúncios de jornal, nas programadoras, sempre confundidas com garotas de programa quando lhe perguntam o que fazem, ou nos ilustradores, como eu, que sempre são interrogados sobre móveis a serem lustrados.
    Em todo caso, sempre há uma boa resposta irônica para lançar e descontrair o momento, ou se livrar de um interlocutor indesejado.
    No seu lugar eu já sairia com vários memorizados pra usar.
    É sempre bom ter uma carta na manga.
    =)

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  4. ah, eu não falo japonês, mas já falei esperanto um dia, tenho uma lista de autores favoritos e posso recomendar vários livros excelentes.
    ĝis la revido!

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