domingo, 27 de fevereiro de 2011

Keminha, o bibelô trombudo

 

     Como disse no post passado, este aqui vai ser sobre os rótulos com que eu fui etiquetada até agora. Ninguém se manifestou no post passado sobre seus próprios rótulos, mas eu continuo achando que é no mínimo curioso pensar consigo mesmo sobre isso, olhando pro teto antes de dormir, no banho lavando a orelha, na aula de 7h da manhã da segunda-feira etc…


img038_thumb3      Eu sempre fui uma menina de regras, de obediência, de rabos-de-cavalo com gel, perfume de alfazema e elogios dos adultos. Uma garotinha comportada, risonha, tímida e puxa-saco que gostava de andar ao lado da professora nos passeios do colégio. Nunca me proporcionei o prazer de me jogar no chão e espernear, de gritar bravamente contra os despotismos maternos. Eu me resignava como uma dama da alta nobreza, cheia de dignidade, apesar do bico e dos impropérios de baixo calão que eu repetia mentalmente.

     Eu sempre fui a fofa.

    Minha mãe era daquelas sortudas que nunca precisou levantar a voz na rua. Ela me olhava – e era tudo. Só existíamos nós duas no mundo, o resto todo eram figurantes borrados, ao doce som da trilha sonora de Psicose. Ela nunca me bateu porque me dava uma coça com os olhos e me fazia temer alguma coisa pavorosa que eu nunca cheguei a saber o que era. E euzinha não ia dar a cara a tapa pra descobrir. Eu não fui uma criança insolente simplesmente porque eu me borrava de medo de alguma coisa. Nada mudou.

 

   Se você conhece a minha mãe, provavelmente acha que ela é muito-fofa-muito-fofa-muito-fofa e não consegue conceber que ela tenha esse olhar. Por conseguinte, caso você não seja muito próximo de mim e nunca tenha merecido a ira dos meus demônios e a desgraça dos meus hormônios, não consegue conceber que eu tenha esse olhar, já que eu “sou” a Fofa Filha. Meus apelidos vão de bonequinha à bibelô, passando por docinho. Mas o que acontece é que eu desenvolvi um olhar tão horripilante ou pior do que o dela, então… tadinho do meu pobre pai.

     Já meu pai me etiquetou como muito séria e antipática. Mas talvez a culpa seja toda dele. Um amigo meu, da escola, o apelidou de Tio Sorriso, e desde pequena ouvi minha mãe dizer que, com ele, era preciso tomar cuidado porque senão ele ria até de enterro. Com medo de ter herdado a propensão a esse vexame, fui passando de criança oferecida a pré-adolescente sisuda. Me interessei mais profundamente em aprender a controlar a sobrancelha esquerda, como meu avô, e a levantá-la ao menor sinal de desaprovação, dúvida, irritação, ameaça ou só pra fazer careta mesmo.

     Bem, mas o negócio é que um temperamento fulminante não fica bem ao lado de tanta fofura. Não combina, é tipo chinelo com meias, é contramão. Só que, repara, tem gente que usa chinelo com meias e é um super luxo…  E não posso esquecer que bombei a primeira prova prática do Detran porque entrei na contramão (oh boy). peq_freehugsipanema4.1

     Não quero assustar ninguém –  por favor! Toda a minha fofice me faz ser uma pessoa de paz, amor, Free Hugs, KorakorDSC02680Vinde a mim os amiguinhos!

     O que quero dizer é que eu também tenho um cisne negro. Ora essa, eu tenho uma cauda de pavão inteira.  É aquilo: entre o branco e o preto há uma porção de tons de cinza. Ou a versão mais sinestésica da cantora Katie Melua: the piano keys are black and white, but they sound like a million colors in your mind…

Um comentário:

  1. Ah, podes crer! Eu não vou dizer que SEMPRE fui a 'fofa', mas desde que comecei a me expressar decentemente, foi o rótulo que recebi (e que carrego até hoje). Como não me solto muito de início, o pessoal já cria uma imagem. Então quando falo um palavrão, se chocam! Hehehe. Ou acham que estou irritada. xD

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