“Eu” é a expressão mais problemática de toda a linguagem, de toda a espiritualidade e de toda a ciência. Todos os grandes pensadores e também os pobres mortais se bateram algum dia com esse sujeitinho malandro. Eu, I, je, io, yo, Ich… As maiores doenças encontram-se nas menores bactérias e mosquitos! (Exceto o respeitável watashi, do japonês – porque esses caras emprestam a devida reverência às coisas. Antes que perguntem, não, eu ainda não falo japonês). Oh, quem sou, o que sou, para onde vou, o que farei? Até a filantropia e o amor são bens que fazemos a nós mesmos. Apesar de aprendermos primeiro a dizer “mamãe”, mamãe será atrozmente atropelada por um grande e absoluto eu que precisa aprender a falar, andar, comer e fazer cocô no peniquinho. É meio cara de pau apontar o dedo para o umbigo narcisista do outro e dizer, ao mesmo tempo, que para virar-se para o mundo é necessário, antes, ter conhecido a si mesmo.
Apesar das diversas modalidades deste esporte radical, blogar é uma atividade essencialmente narcísica, sabemos. Um blog é um templo sagrado do eu, um diário público. Não preciso falar sobre as minhas mazelas o tempo todo, basta que eu ache que a minha opinião sobre qualquer coisa é importante o suficiente para ser anunciada no Facebook: amigos, acabei de fazer uns comentários sagazes no meu blog e sua vida será um pouco pior se vocês não os lerem! Basta que eu seja destemida o bastante para me jogar aos leões digitais. Muito embora eu nunca tenha tido uma opinião que prestasse na época do Vestibular e minhas redações não terem merecido mais do que sete, aprendi na faculdade a enrolar com a linguagem e, eis aí, aprendi a fabricar alguns comentários mais ou menos bem articulados. Virei uma pentelha implicante, que simplesmente não gosta de concordar, que se mete com os filósofos com o maior topete, mas sem o menor cacife. Disse Blaise Pascal que “ridicularizar a filosofia já é de algum modo filosofar”. Não foi por menos que Alberto Caeiro morreu logo, de lógos.
Mas deixa pra lá o Alberto Caeiro. Eu, obviamente, sou muito mais interessante.
E… quem sou eu? Quem é você?
Êta ferro, valha-me Deus, dá até vontade de bocejar com essa pergunta batida e rebatida over and over again, responsável pelo individualismo selvagem, pelo bullying e pelas filas de crianças sendo tratadas em clínicas de psiquiatria.
Mas, fazer o quê, é uma pergunta legítima, respondida com rótulos. Somos batizados com epítetos.
Começa ali logo na infância, quando recebemos nossas etiquetas, carimbos, rótulos, como queiram chamar. O “rótulo” é dito sempre em tom de crítica, como se ser rotulado ou rotular alguém fosse algo criminoso a não ser feito, mas todos somos etiquetados, é assim que é, pronto, paciência. Alguma característica nossa é posta em alto relevo, alguém diz em voz alta que somos tal coisa and there you go, viramos aquilo. Precisamos nos reconhecer por algum traço distintivo. E muitas vezes são eles que nos dão a medida de nós mesmos na frente do espelho. É claro que podemos bater o pé. Eu não sou isso, porra. Mas é complicado, duvidamos… e se estiverem certos? Às vezes adotamos uma alcunha de bom grado… ou nem pensamos sobre isso…

No próximo episódio, vou pensar nas minhas etiquetas. Enquanto isso, quais são as suas? Código de barras, informação nutricional, tamanho P, M ou G?

Será que devo dizer o que, neste momento, estou me coçando toda pra falar? Afinal de contas, os "leões digitais" lerão e aí você poderá zangar-se comigo e dizer: "Putz mãe, você tinha que me entregar?", mas mesmo assim, dê no que dê, lá vai:
ResponderExcluirDiminui a modéstia com este "sete em redação", porque "sete" você até pode ter tirado num momento infeliz, numa redação sem inspiração, mas deve ter sido apenas uma vez e olhe lá.
Você sempre foi de grandes idéias e boas palavras, passava e muito, dos "sete" !
Pronto falei, não, escrevi.
Cuidado comigo. Um dia, num momento de insensatez, o que me é bem peculiar, roubarei seus textos e editarei um livro. (hahaha)
E lá vai a Akeminha com os seus cafezinhos...
Mãe... mas eu tirei 7 na redação da UFRJ e da PUC mesmo... hahahaha
ResponderExcluirEntão... como disse, foi num momento infeliz, numa redação sem inspiração.
ResponderExcluirVocê não estava tomando seu cafezinho, sem cobranças e horários. Você estava com o monstro do vestibular à sua frente.
Adorei a mamãe de Akemi, e concordo com ela.
ResponderExcluirSua mãe tem razão, Akemi, ela e todos os outros do universo, temos razão, menos você, o pessoal da UFRJ e o pessoal da PUC.
Nós funcionamos assim, infelizmente, taxando e etiquetando tudo. Desde pequenininhos.
ResponderExcluirTriste também é quando o rótulo se torna maior do que o objeto, escondendo as possibilidades do próprio objeto se tornar outra coisa (a nossos olhos) e assim ganhar novos rótulos.
A mente da gente é taxonômica, é comprovado, precisamo disso pra sobreviver, usamos isso pra descer das árvores e entrar nas cavernas, e cá estamos, nas nossas cavernas sofisticadas, mas ainda utilizando o mesmo método de catalogação.
O erro da gente é deixar o rótulo ser definitivo e não nos permitirmos mudar em respeito a esta "tag" que nos deram, nos impusemos.
Adorei o post!