Jorge Luiz Borges¹ tem um texto chamado “O idioma analítico de John Wilkins” que é bastante citado por suscitar inúmeros sacolejos filosóficos, tendo provocado em Foucault um “riso longuíssimo”. Talvez vocês não identifiquem o texto pelo nome, mas é um que trata das divisões do universo em categorias, subcategorias, gêneros etc, enfim, da tentativa do homem de organizar o mundo.
É um texto de tamanho razoável, mas cuja parte que sempre chama mais atenção é aquela de oito linhas, mais ou menos pela metade, sobre “certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos”. Nela, “consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas”.
É simplesmente uma lista. Uma lista adorada, como já disse, por várias pessoas. Eu também a adoro. E lembro dela agora nesse final de 2010 e início de 2011, cheio de listas. Listas de presentes de Natal, de supermercado para a comilança do Natal, de resoluções para o Ano Novo. Algumas pessoas só pensam, outras pensam e falam, outras pensam e escrevem, outras pensam, escrevem e postam no Facebook. Algumas listas são mais específicas, com objetivos do gênero perder 6,459kg, conseguir um emprego, tratar melhor a mãe, visitar mais os avós, virar vegetariano. Outras são mais genéricas, como pedidos de amor, paz, justiça, equilíbrio. Ambas bastante tradicionais e com sua serventia, como a boa e velha classificação dos animais vertebrados em mamíferos, répteis, anfíbios, aves e ornitorrincos.
Pensando sobre as últimas listas de resoluções que você leu, a sua própria e a dos seus contatos no Face, volte algumas linhas acima e releia a classificação da certa enciclopédia chinesa.
Sim?
Eu sei que viajo na maionese engordurada quando começo a escrever (você provavelmente já me disse isso – ou pensou – alguma vez), mas esse cara aí viajou demais. E não é o máximo tentar forçar nossa imaginação para tentar alcançar essa lista classificatória, não conseguir e começar a rir? (Outra solução é arquear as sobrancelhas, balbuciar um “que porra é essa?”, fechar o texto e me mandar à merda). Só que se desde bebê você tivesse aprendido a ver os animais de acordo com essa enciclopédia, você riria se de repente um Zé Mané qualquer viesse com uma historinha de mamífero, e, pior, te dissesse que você mesmo é mamífero. Vejamos o querido Plutão (adoro Plutão), quando você e eu nascemos, Plutão era um planeta e há alguns poucos anos alguém resolveu dizer que não é mais, e o mundo inteiro fez “OHHH” numa interjeição internacional de assombro. E então pronto, não é mais, acabou, êê!, next, please! Não há nada que se assemelhe mais a um sarapatel de cachorro doido do que a Ciência.
O negócio é que dá pra ver o mundo de outras formas, colocar outras etiquetas, arrumar as coisas em outras gavetas. Serve como cirurgia de miopia. Você quer ficar fora dessa?
Será que conseguimos refazer nossas listas de resoluções? É só um pensamento. Eu passei alguns minutos pensando em como eu poderia construir uma lista de resoluções inusitada e arbitrária diante do tradicional (que também é arbitrário), e fracassei. Fracassei, justamente porque o arbitrário vai acontecer, só precisamos ser bons árbitros e apitar a vida direito. Quando eu digo "direito", quero dizer "de forma a enxergar".
E enfim, se eu não consigo escrever algo tão legal, desejo pelo menos que todos nós possamos abrir espaço às sereias, aos fabulosos, aos que se agitam como loucos, aos que são pintados com finíssimo pincel de pêlo de camelo, ao etcétera e até mesmo àqueles que acabaram de quebrar o vaso.
***
¹ (BORGES, J.L. "O idioma analítico de John Wilkins". In: Obras completas (3 vols). São Paulo: Globo, 1999, vol. II, [p. 92 a 95].)
Nenhum comentário:
Postar um comentário