sábado, 23 de fevereiro de 2013

E era bonita

Ainda se fosse feia... Mas era bonita. Olhos verdes e tudo o mais. Fumava pelo bem da pose, um atrás do outro. Em público, no início, com vinho em copo de plástico, e depois até sozinha, com o rímel nas bochechas, logo depois de acordar, com café puro. Às vezes colocava um arco no cabelo, e fumava. O arco e o cigarro eram a combinação perfeita, ela tinha certeza. Tudo junto, porque tudo junto era complicado, era uma pergunta na beira do precipício. Ela pensava que todos eles morriam por uma pergunta na beira do precipício. Ela se punha perto dos que tinham um violão, dos que cantavam músicas antigas, dos que falavam de filmes antigos e de livros do underground. Falava por citação e tudo era lindíssimo. Dançava com o pescoço inclinado para trás, os olhos à metade fechados, fechados o suficiente para lembrar as letras, abertos o suficiente para ver quem a via. Desses chegava mais perto, tocava o braço, a culpa é da cerveja, a música é tão boa, não é? Belíssima. Então com esses cantava inclinando o pescoço para frente. Inclinava o pescoço para frente a todos os que via que a viam. Pensava pode ser esse, mas esse nunca era.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Livros de colorir

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Eu fui uma criança com lindos livros de colorir e bons lápis de cor. Para minha mãe, eram objetos de preservação: eu pintaria apenas as cópias das páginas, com lápis vagabundos. Aqueles lápis caros, em caixas lindas, presentes de gente que vinha do estrangeiro, tinham sido feitos para o sono eterno. Jazem aqui nesta gaveta lápis de cor holandeses, japoneses, franceses. Os livros e os bons lápis seriam conservados para um futuro misterioso, para um cuidadoso que um dia surgisse e não deixasse os lápis caírem e quebrarem por dentro. Um artista sobretudo respeitador das bordas dos desenhos. A única cor que há hoje nos originais é um amarelado antigo e triste, o sinal de que nunca nenhuma criança passou por ali. Os livros de colorir fornecem a didática dos limites, ensinam as fronteiras. Quando não há mais borrões para fora, é o final. Significa que o ensinamento se completou. Aprendeu-se a respeitar os limites. Uma mão que aprendeu a não borrar não borrará nunca mais. Essa é toda a tristeza dos livros de colorir: ninguém entendeu que seu verdadeiro ensinamento é o borrão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Foi-se uma vez um bruxo

- Sim, diga-me.

- Me aconselha um livro de fantasia?

- Que fantasia você quer?

- Uma com personagens não-reais, mas...

- Eh! Mas...

- Só não queria o Harry Potter que não...

- Ah, tranqüila que Harry Potter não aconselho a ninguém!

A esse ponto vieram andando o bibliotecário e a menina em direção às estantes às minhas costas. Eu sorria ainda do modo com que ela encomendou um conselho de livro de fantasia. O bibliotecário me viu sorrindo e, provavelmente achando que eu era solidária ao seu mal-estar potteriano, me sorriu de volta trocando comigo um olhar presunçoso de literato: pff, Harry Potter... haha. Soubesse ele que eu estava ali naquele momento em grande parte graças ao Harry Potter, teria me caçado da biblioteca. É quase um horror dizê-lo em voz alta. Gostar de Harry Potter é fora da lei. Ele é um clandestino na estante, camuflado com dificuldade (afinal é um catatau de volumes) em meio aos maravilhosos herméticos da Grande Literatura. A Academia tem uma odiosa tendência a escorraçar o que faz sucesso. Os entendidos de Literatura Infantil analisam com olhos adultos e oferecem coisas que as crianças tantas vezes deixam pela metade. Depois começam a oferecer uma Literatura que a idade ainda não permite, que lêem com a obrigação da prova. Eu não gostava de ler até os dez anos. Com todos aqueles Machados de Assis e Josés de Alencar, teria continuado a não gostar de ler. E não creio que seja uma experiência idiossincrática. Você aí, admita. ADMITA! Nós, da geração de ‘90, estamos no mesmo barco furado. Uns mais esperançosos do que outros, nós esperamos a coruja na noite dos onze anos.

Hoje, dou a Machado a chance de ser a obra-prima que é, mas não dou a Harry Potter a derrota de se mostrar como a porcaria que dizem ser. É como descobrir que Papai Noel não existe. É triste. Dos livros muitas vezes não resta nada a não ser a impressão que deixou, a atmosfera do lugar em que líamos, a maciez do sofá, os pés para cima. De Harry Potter não me resta muito a não ser os pés para cima, a clausura no quarto até a última página, os amigos em vários cantos do mundo. Que fique assim. A adulta hoje cheia de não-me-toques não tem nenhuma autoridade sobre a criança que botou os pés para cima e leu. O cânone da Literatura Infantil não pode ser forjado a partir da Academia. O cânone da Literatura Infantil é pessoal e intransferível. Os sete volumes permanecerão intocados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ah, a revolução…

Não me pego cantando, com a mão no peito, os olhos fechados e a boca no vinho, músicas de revolução. Difícil me lacrimejarem histórias de ditadura, revoltas estudantis, cassetetes esfolando um e outro. Pecado, eh! Pecado... Burrice juvenil, que soe como soe. As pessoas são ruins, criança, a tua coragem escandalosa não salva o mundo da cinta. A tua blusa comunista nunca pôs feijão no prato de ninguém. Fosse homem, não faria crescer a barba. Mulher, não faria crescer os pêlos do sovaco. Resolve o grito? A mim nunca sucedeu. Pecado! Nunca tive mãe que ouvisse a gritos. Talvez eu hoje acreditasse em músicas de revolução. Vida e liberdade sempre me pareceram outra coisa, coisa longe da morte. Mas a cada um a vida como lhe parece. Gritar só me escalpelou a vida sem nada me dar de resultado. Coragem maior é a de calar, de fazer a tua revolução no silêncio. Não é de uma vez que se ganha. Não é de duas. Um grito tem sempre um fôlego. E um fôlego acaba no zunido de uma cinta.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bolonha § Bologna

 

“Bologna grows on you” ~Teo Green


20120914_112608Bolonha é uma cidade que te pára no meio da rua. Em Bolonha não se caminha em linha reta, com um único pensamento tranquilo desde o quarto até a destinação final, sem que algo te atropele com barulho e violência; violência feia ou bonita. Alguns passos fora de casa e poft, já tá escorregando em caca de cachorro. Mais alguns passos e... mas muita atenção ao dar esses passos, por favor! Não tropece nos punkabbestia, nos mendigos. Atenção às garrafas quebradas de cerveja, aos rabos dos cachorros, esteja atento! É a cidade dos cachorros, Bologna; dos cachorros abandonados adotados pelas pessoas abandonadas. “Temos fome, ajuda”, dizem os papelões.

Passos dados, nenhum rabo ferido, começa a ouvir uma música. Coisa boa na Piazza Maggiore. Jovens que se metem juntos pra fazer um dinheirinho dentro de um chapeu. Pensa que se soubesse tocar faria o mesmo. Que desgraça não saber nem segurar um violão. Sorri, lhes dá uma moedinha, agradece pela alegria, continua. Lá pela metade da Piazza te encontram os vendedores de livros de fábulas africanas. Você não sabe muito bem o que fazer, não é que as fábulas africanas te interessem assim tanto e além disso você já comprou um desses livros outro dia. Bate um papinho, diz não, obrigada, segue adiante. Vai fazer o aperitivo (evitar a Via Del Pratello!). Senta, e antes que te tragam o Spritz, te chegam os paquistaneses. Um atrás do outro, com flores murchas, chaveiros de plástico, coisinhas de todo gênero pra fazer luz de maneiras mil. Insistem, te tocam, ficam ali perto de você por alguns segundos de agonia. No início você diz não, obrigada querendo de todo o coração dizer sinto muito. Depois de um tempo diz não, obrigada querendo gridar não enche a porra do saco!

Termina de comer, dá uma volta na Via Zamboni, das sombras te sai uma voz... da escuridão te faz a oferta... “Bicicleta?”. Imediatamente te vem a angústia. Nem bem ontem te surrupiaram a tua bicicleta. Talvez seja exatamente a tua que agora querem te vender. Dá uma olhada. Não é a tua. Mas é a de uma outra pessoa. O cara te olha. Você olha o cara. Segundos horrendos se passam entre você e ele até que você finalmente diz: “STRONZO!”. Grita como nunca havia gritado antes, mas você se sente tão impotente por saber gritar só isso. Você é uma menina ridícula. “FILHO DA PUTA!”. Agora é uma estranheira ridícula. Mas o filho da puta já foi embora e todos te olham. Paciência. Eh, é preciso ter paciência, você desde ontem está a pé.

Chega ali onde vêm dar Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, em frente às Duas Torres. Eis-te quase atropelada por carros, vespas e bicicletas. Mas sobrevive. Volta à Piazza Maggiore, ali estão os paquistaneses fazendo voar luzinhas azuis pelos ares. É linda a Piazza Maggiore. “A piazza mais linda do mundo”, te disse um dia uma amiga numa época em que você ainda não podia entender. Agora preenche essa piazza de lembranças e a olha dizendo você também que está na piazza mais linda do mundo. Sem bicicleta, sem moedinhas, com caca de cachorro no sapato, mas com uma bela de uma janta na pança, com bons amigos no peito e com as chaves do apartamento no bolso. Esta é a minha casa. E eu gosto dela.

(Pelo menos até que cheguem os três metros de neve)


Bologna è una città che ti ferma per strada. A Bologna non si cammina mai sempre dritto, con un solo pensiero sereno dalla camera alla destinazione finale, senza che qualcosa ti si schiaffi addosso con rumore e con violenza, sia brutta che bella. Alcuni passi fuori casa e poof, ecco che scivoli sulla cacca di cane. Ancora alcuni passi e... ma attenzione bene a questi passi, mi raccomando! Non inciampare sui punkabbestia, sui senzatetto. Attento alle bottiglie rotte di birra, alle code dei cani, attento! È la città dei cani, Bologna; dei cani abbandonati che vengono adottati da persone abbandonate. “Abbiamo fame. Aiuto”, dicono i cartoni.

Passi fatti, nessuna coda ferita, cominci a sentire la musica. Roba buona in Piazza Maggiore. Ragazzi che si mettono assieme e si fanno i loro soldini dentro un cappello. Pensi che se sapessi suonare lo faresti pure tu. Che sfortuna non riuscire neanche a tenere una chitarra in mano! Gli sorridi, gli dai una monetina, li ringrazi per l’allegria, continui. A metà Piazza ti vengono incontro i venditori di libri di favole africane. Non sai bene cosa fare, non è che le favole africane ti interessino così tanto e ne hai già comprato uno l’altra volta, di libri. Chiacchieri un po’, dici no, grazie, vai avanti. Vai a fare l’aperitivo (mi raccomando, evitare Via Del Pratello). Ti siedi, e prima che ti servano lo Spritz, ti arrivano i Pakistani. Uno dopo l’altro, con fiori appassiti, portachiavi di plastica, cosine di tutti i generi per fare luce in maniere diverse. Insistono, ti toccano, rimangono lì vicino a te per qualche secondo di agonia. All’inizio dici no, grazie volendo dire con tutto il cuore mi dispiace. Dopo un po’ dici no, grazie volendo invece gridare non farmi girare le palle!

Finisci di mangiare, fai un giro in Via Zamboni, dall’ombra esce fuori una voce... dal buio ti fa un’offerta... “Bici?” Subito ti viene l’ansia. Appena ieri ti hanno fregato la tua bici. Forse è proprio la tua che ora ti vogliono vendere. Dai un’ occhiatina. Non é la tua. Ma è quella di qualcun altro. Il tizio ti guarda. Tu lo guardi. Orrendi secondi passano fra tu e lui finché finalmente tu dici: “STRONZO!”. Gridi come non avevi mai gridato nella vita, ma ti senti così impotente di aver saputo gridare solo quello. Sei una bambina ridicola. “FILHO DA PUTA!”. Adesso sei una straniera ridicola. Ma lo stronzo è già partito mentre tutti ti guardano. Pazienza. Eh, ci vuole pazienza, ormai sei a piedi.

Arrivi lì dove si incrociano Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, davanti alle Due Torri. Eccoti quasi ammazzata da macchine, vespe e biciclette. Ma ce la fai. Torni in Piazza Maggiore, ci sono i pakistani che fanno volare delle luci azzurre nell’aria. È bella Piazza Maggiore. “La più bella piazza del mondo”, ti ha detto un’amica tempo fa, quando ancora non lo potevi capire. Ora la riempi di bei ricordi e la guardi dicendo pure tu che sei nella più bella piazza del mondo. Senza bici, senza monete, con cacca di cane sulle scarpe, ma con buon cibo nella pancia, con buoni amici nel cuore e con le chiavi dell’appartamento in tasca. Questa è casa mia. E le voglio bene.

(Finché non arriveranno tre metri di neve).

Grazie mille ad Arianna per l’aiuto grammaticale!