terça-feira, 31 de julho de 2012

Vai, vedrai

 

Sempre tive medo de não poder ir, de arrumar a trouxa de madrugada, com uma calcinha e uma boneca, escolhida a muitos custos, sair do quarto com todo o cuidado e parar, estatelada na frente da porta, vendo a chave pendurada na fechadura, quieta, pesada, sempre disponível para cumprir seu papel, mas ouvir um ruído no interior da casa, tomar uma paulada de susto no coração, quase cuspi-lo e sair correndo de volta ao quarto, com a coragem na boca, a calcinha de volta à gaveta e a boneca de volta para junto das outras. Medo de que algum ruído no interior da casa colocasse meu rabinho entre as pernas e eu ficasse.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pelo dia, escritor

 

Um tique nervoso percorreu o paletó de camurça vermelha de monsieur Moustache e morreu discretamente no cantinho inferior de sua narina esquerda antes que ele respondesse, sem tremer em um tom a voz monocórdia, como se aquela impertinência nada fosse, que o que se produziu em Teoria Literária nos últimos cinqüenta anos é irrelevante, falemos, então, de manuscritos (déjà-vu). Palimpseste, ele escreveu, como pretexto histórico para nos escorregar, como uma extensão de papel de sua própria mão, uma cópia em A5 de uma página de manuscrito de Proust. Monsieur Moustache tinha acesso direto aos cadernos proustianos e às mais labirínticas peripécias de sua cachola. Ele descia durante horas todos os dias às profundezas de setas, letras minúsculas e balões aleatórios. Dava aquelas aulas seminais de Teoria pelo mal da profissão. Monsieur Moustache era um homem da prática, da caligrafia. A Teoria nada era diante da obra sendo feita, do manuscrito! Patati, patatá.

Guardei a cópia em A5 como lembrança de uma obsessão e tive tanto medo de descobrir quem era Swann que até mesmo a primorosa tradução de Mario Quintana ficou alimentando poeira dentro do armário por anos (Proust ele mesmo me era impensável e absolutamente indigerível). Mas Proust foi se tornando inevitável e ler as memórias daquele homem que costumava deitar-se cedo tinha de ter alguma boa razão essencial. Devia haver mais ali do que mera erudição e eu deveria deixar de ser preconceituosa com catedráticos de bigode, por pouco idênticos ao seu escritor preferido. Peguei o volume azul e demorou até que os sussurros de M. Moustache diminuíssem: ao pé de meu ouvido, ele mau agourava a senhorita nunca conseguirá. Por vezes penso estar perdida, vencida e derrotada. Mas alguma coisa linda de repente me pega de assalto e, confiante, eu dou a língua para os murmúrios agourentos de M. Moustache.

A passos pequenos, a piscadelas de férias na praia, avanço.

Feliz dia, escritor, por me fazer leitora.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Saudade pra que te quero

 

A gente já entendeu que saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Todo lusófono já se sentiu dono de um poder absoluto ao descobrir isso. Este sentimento, reunido num substantivo, sem a complicação da conjugação do verbo, I miss you, tu me manques, te echo de menos... Saudade e um ponto (saudade.) num SMS ou numa publicação no mural do Facebook bastam pra passar toda essa falta que o outro faz ou que alguma coisa faz. Uma coisa da mesma ordem gramatical do amor, do ódio, da paixão, da miséria. Uma falta substantivada. Já entendemos. Os lusófonos sabem que não é o mesmo que nostalgia. “É a mesma coisa”, diz o argentino. “Não é!”, defendo eu, e não consigo explicar mais além. Talvez nostalgia seja uma distância substantivada, enquanto saudade é um buraco. “C’est quoi exactement la saudade?”, pergunta a professora de francês. Me calo. O português me olha, suspira com as sobrancelhas e começa a explicar por cinco minutos e, apesar de sua eloqüência, no final todos só entendem que saudade não é realmente compreensível para quem não é lusófono – e isso aumenta o segredo e o orgulho de ter essa palavra. Ou talvez façamos de propósito. Os lusófonos que fazem Erasmus e vão embora começam a encher de saudades! o Facebook dos amigos estrangeiros... Autores lusófonos escrevendo em língua estrangeira têm obrigatoriamente que meter uma saudade no meio de um texto, assim, em itálico, pra reforçar que essa palavra não pertence a mais ninguém. O lusófono não vai ceder saudade como o francês cedeu o abajur e como o inglês cedeu o mouse. Ai, todo um exagero em torno de uma palavra que ninguém mais tem. Os ingleses têm os Beatles, os franceses têm os queijos, os espanhóis têm a Zara, os italianos têm a pizza, os americanos têm o mundo e nós temos a saudade. Mas isso, sejamos sinceros, não é algo a se orgulhar porque, no final das contas, só quer dizer que alguma coisa está sempre faltando. E não vem me dizer que isso é legal.

Falando em legal, veta, Dilma. Já sentimos saudade de muita coisa. Deixa pelo menos a floresta.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Empreendedorismo literário

A palavra da pauta é empreendedorismo, que carrega no calhambeque toda a família buscapé: inovação, mudança, originalidade, risco, loucura, coragem. Todo mundo tá lendo a biografia do Steve Jobs, Eike Batista só pensa em inovação, os publicitários brasileiros tão bombando nos prêmios de criatividade, o Brasil deu que deu pra investir em pesquisa, pra investir no jeitinho.

Todos sabemos que se destaca quem descobre, entende ou cria um negócio novo, no esquema das três maçãs, Adão, Newton e Jobs. Cada um no seu galho, todo mundo quer dar novos respiros ao próprio campo de ação, e não é que seja antes pelo bem desse campo de ação do que pela autopromoção, por um nomezinho na História... E não há nenhum mal nisso, diga-se de passagem (que nem a história do voluntariado, que tem gente que critica porque o outro tá fazendo só pra botar no CV etc; eu não critico, pelo menos tá fazendo andar pra frente, porra. E vê se levanta também e vai fazer. Palhaçada...). Foi só pra criticar a tradição artística meio chulé anterior e pra “fazer refletir sobre a arte” que o Duchamp assinou aquela porcaria de penico? Não, né? Ninguém se lembra de nenhum nome de trovador da Idade Média (até porque era tudo igual mesmo e ninguém assinava), mas todo mundo já ouviu falar do trio ternura Dante, Petrarca e Boccaccio (apesar de não podermos afirmar que eles tivessem plena consciência, ali no final da Idade Média quando a figura do autor ainda era meio desprezadinha, da importância que iriam tomar).

Ninguém estuda o que é igual na Universidade; estudamos aquilo que tem seu valor de originalidade, de ruptura, e acabamos sem conhecer aquilo com o qual essa coisa maravilhosamente nova rompeu, pra início de conversa, o que torna as coisas bastante abstratas. Então, paradoxalmente, ficamos repetindo uma historiografia literária cheia de monumentos de ruptura (sabe-se lá exatamente com o quê) até alguém descobrir (e se tornar uma estrela da Teoria!) aquela história de “kafkianos antes de Kafka” – e você pensa que realmente deveria ter ido fazer faculdade de estatística, que é muito mais exata do que literatura.

Os aspirantes a escritor, sem conseguir escrever uma história simples e boa, arrancam os cabelos pensando que sua única solução para a glória (provavelmente póstuma) é escrever algo mirabolante, mas que Joyce e Virginia Woolf já existiram. O aspirante a escritor passa então à glória bastarda, a do best-seller, mas já existiram triunfalmente elfos e hobbits, bruxos e trouxas, já existiram infelizmente vampiros fosforescentes. O aspirante a escritor pensa que nasceu tarde demais. Ele começa a fazer experimentações de como bater com a cabeça na parede e de como torturar o Word com coisas. Será publicado alguma hora. Ninguém mais ousa recusar empreendedores literários por medo de serem chamados de críticos imbecis num futuro próximo. A crítica ruim é necessariamente imbecil... há que se ver potencial em todo espetáculo débil de teatro, em todo penico assinado num canto de museu. O crítico tem que ser prafrentex e iluminar um hermetismo qualquer. O crítico também é a figura que quer a autopromoção, ele quer ser dotado da visão. Feliz do aspirante, não terá que esperar até a era póstuma. De todo modo, também acontecem coisas estranhas com os póstumos. Os póstumos são descobertos no fundo de uma estante empoeirada de biblioteca por estudantes de mestrado ou doutorado que precisam de um autor obscuro pra conseguir estudar alguma coisa que ninguém estudou ainda...

Diferentemente do empreendedorismo empresarial, o empreendedorismo literário não dá resultados imediatos (ou relativamente rápidos). De modo geral, o investimento em inovação literária dá lucros a longuíssimo prazo e o investidor tem 80% de chances de estar gelado de tão morto quando vierem os frutos, através desse estudante de mestrado e doutorado, depois de passar uma vidinha de mendigo. Mas a literatura não precisa sempre de coisas mirabolantes, a literatura precisa de boas histórias. Ela está cheia de boas histórias, mas, diferentemente de outras áreas, uma boa história a mais na literatura não é algo medíocre. É algo que talvez esteja em falta, em meio a tantas experimentações espalhafatosas e enfadonhosamente metalinguísticas... Escreva um bom soneto. E bastará.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O coelho e a verdade - I

Não apropriado para menores de 8 anos.

Infelizmente nesta Páscoa não estarei em casa pra ver as pegadinhas de coelho em talco que minha mãe faz no corredor pras crianças da vizinha. Sempre gostei da Páscoa, evidentemente porque tem chocolate, mas também porque os ovos de chocolate nunca me deram tanta dor de barriga quanto a ansiedade da véspera de Natal – os presentes sempre chegaram, mas o fato de não ter uma chaminé sempre me deixou aflita. A caça aos ovos, as pegadas em talco, que eram para mim nessa época... Essas patinhas de coelho tiveram que desaparecer alguma hora (até ressurgirem para os vizinhos), mas ainda durante algum tempo pedi aos meus pais para continuarem escondendo os ovos, só porque era divertido procurar... eu dizia. Mas havia um coelho – um coelho que murmurava, de alguma parte, não acredite que foram eles, não, não, fui eu! Um dia minha mãe me entregou um ovo em mãos: feliz Páscoa, ela disse, e o coelho se calou para sempre.

É com a Páscoa e o Natal que aprendemos pela primeira vez sobre a verdade e a mentira. E o mundo está prestes a cair sobre as nossas cabeças: quem mentiu para nós, quem nos fez acreditar com tanta dor de barriga, ao custo de tanta ansiedade e sofrimento (por favor, Papai do Céu, faça com que o Papai Noel consiga deixar meu presente aqui mesmo que eu não tenha uma chaminé, por favor por favor por favor, amém), quem primeiro nos enganou nessa vida foram os nossos pais. Se os nossos próprios pais nos fizeram de bobos e fizeram sabe-se lá o que com a infinidade de cartas suadas que escrevemos ainda semi-analfabetos... o que o resto do mundo fará conosco? Quantas vezes mais seremos enganados?

Finalmente não conseguimos ter raiva dos nossos pais, porque sabemos, com a sensibilidade da criança que acabou de amadurecer mais um passo, que há algo de muito amoroso nessa farsa para que nossos pais acordem de madrugada para arrumar os presentes de Natal ao redor da árvore, para esconder preciosamente os ovos de Páscoa e para se colocar de quatro no chão às cinco da manhã fazendo pegadas de talco. Quando uma criança acorda à noite e flagra o pai com a bunda para o alto escondendo um ovo de Páscoa debaixo do sofá, essa criança arregala os olhos, quase chora, mas começa a andar para trás, cuidadosa para não fazer nenhum barulho, e não decepcionar o pai: ela já sabe, mas ele não pode saber que ela sabe, porque seria muito doloroso para ele – e ela o sabe numa complexidade atroz, que só uma criança consegue suportar. Até que os pais descubram sozinhos que ela já sabe e ela será obrigada a confessar, com toda dor e alívio do mundo, eu sei a verdade.

Eu os perdôo, pensa a criança. Ela não guardou rancores porque de alguma forma compreende que aquilo era mais do que a farsa, era o maravilhoso, e é por amor que os pais oferecem o maravilhoso, mesmo que. Mas de qualquer forma já é tarde. Essa criança aprendeu a desconfiar. Ela é agora uma pequena filósofa que desconfia de tudo.