sábado, 19 de outubro de 2013

Rio, apesar de muito

 

É triste, mas é apesar de muito que a gente ri. É por essa vida que é só aqui, só daqui, que é muito pior do que noutro lugar, mas muito pior noutro lugar. O ponto de vista sempre serve para consolar, porque carioca precisa de alguma consolação. Talvez seja o que faz o mendigo da Lapa parar na janela de um sobrado pra escutar o samba de dentro, com muito mais gosto do que nós, que pagamos vinte reais para entrar, estamos pagando quinze na longuinec e ainda, mesmo assim, estamos fora, muito por fora, sem muito samba no pé, olhando do segundo andar. A cantora sabe que qualquer canto é menor do que a vida dessas pessoas, ela se vira mesmo assim e canta praquele público que não pagou, porque é a coisa mais honesta a se fazer. Nosso samba não é de preto velho e a gente tem jogo de cintura só pra dizer pro mendigo que nosso dinheiro acabou e, desculpa aí amigão, não vai dar não. E ele diz, com jogo de cintura pra viver, chateado, indo embora, que poxa vida, ele sempre chega atrasado, quando o dinheiro das pessoas já acabou. A gente sorri, apesar disso, porque é lindo, apesar de tudo. Mas esse jogo de cintura pra viver um dia acaba e a gente não tem jogo de cintura pra dizer mais nada, vendo o iPhone ir embora, na baia de um malandro com uma pistola. A gente fica chateado, desculpa aí amigão, perdeu. Perdi, perdemos, perdemos tudo. Somos roubados dentro das lojas porque temos que comprar, temos que beber aquela água de cinco reais e aquela longuinec de quinze, porque temos que nos vestir e porque temos que. Somos roubados fora das lojas porque temos que viver. Somos roubados, de um jeito ou de um outro, porque o bicho pega e, bicho, o bicho come, mas tá todo mundo rindo. Viver é melhor que chorar. E faz tempo, eu não vi você na rua, mas sei que seu cabelo esteve ao vento com outros cabelos de gente jovem. Você hoje é gente velha e eu tenho visto novos cabelos jovens reunidos. E esse é o quadro que dói mais, porque doemos como os nossos pais doeram. Ainda. E de novo. Mas de noite, ali na Lapa, na chuva, com o pivete, a gente ri porque nuns mais, noutros menos, a ferida é viva, mas viver é melhor que chorar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A vida dos outros

 

Não há muito além da vida dos outros. A vida dos outros é pelo que se acorda toda manhã, é pelo que se vai ao bar, é pelo que se marca encontro, é o que se suspira pelas alcovas e o que se fala alto pelos botecos. A vida dos outros é a razão de viver do palpitar, do mexerico, do disse me disse que me disse. A vida dos outros é pelo bem do assunto, é só porque se ela não existir, vai-se embora e não se falou nada. Palpitar igual sobre a vida dos outros é virar unha e carne, é ser do mesmo time. A vida dos outros serve para colocar os outros em nossas vidas. A vida dos outros é a mãe do Fulano e do Cicrano, que sou eu e é você. A vida dos outros é a mãe da Puta e do Filho dela também, que sou eu e é você, também. Digamos, a vida dos outros é a mãe do Vagabundo, do Cafajeste, da Maluca, da Histérica, é a mãe da Gostosa e da Gorda, também. A vida dos outros pariu a porra toda e é pela porra toda que afinal estamos todos aqui. A vida dos outros é pelo que se vive a própria vida, vida própria que é a vida alheia dos outros. Falem mal ou falem bem, que falem dos outros, a minha alteridade é minha e não é de mais ninguém, que eu não vou ficar sendo o Fulano de alguém – quer dizer, não vou ficar sendo o Fulano do Cicrano como o Cicrano é o meu Fulano. Entendeu. Não. Deixa pra lá, deu quatorze linhas de assunto.

domingo, 2 de junho de 2013

saber querer

Para experiências futuras, eu perguntei, o que eu deveria saber? e ele pensou um pouco sem querer imaginar que haveria para mim um futuro outro, olhou para baixo e olhou para mim e me disse enfim saiba querer, diga o que quer, porque é muito difícil não saber o que você quer e você deveria querer com toda a força, mesmo que tanto faça, não deixe que os outros escolham por você porque essa é a sua vida e pronto, não dá pra saber quando ela vai terminar. De improviso comecei a chorar e num soluço feio e sem nenhum ar disse eu não sei o que fazer da minha vida, isso está acabando e eu não sei o que fazer comigo. Além do mais tenho medo de incomodar o querer dos outros querendo demais, mas isso eu não disse porque tinha acabado o ar e se eu não pegasse a bicicleta e fosse embora teria desfalecido ali, sem nenhum querer.

domingo, 26 de maio de 2013

aos piolhos dos meus oito anos que os anos não trazem mais

A gente sabe que cresceu quando esquece o rancor pela infância e quer voltar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Eu disse não escrevo

Eu teria história pra contar. Não história minha, porque a minha vida não é que seja muito romanesca. Mas aquela história do pai da babá sueca dos meus sobrinhos, fugido do Irã como num filme de aventura. Aquela história da perna quebrada do meu avô e as pipas que vendia pela janela, na Ilha do Governador. A história de um incêndio na casa do melhor amigo do meu pai, no Japão, naquela época em que ele comia arroz e gafanhotos na miséria do pós-guerra. Gostaria de contar as histórias em tapetes mágicos da minha irmã no Marrocos. Mas em vez disso eu disse... eu disse não escrevo, não escrevo histórias.

Estou escrevendo isso só para não escrever outra coisa – a tese, largada em outro Word.