sexta-feira, 2 de março de 2012

Senhor Kojima

 

Era porque estava ficando cada vez pior e ele não queria ficar mudo. Senhor Kojima me disse que poderia ficar mudo. Ele me disse que se eu não lhe desse as aulas ele poderia ir dando backspace na língua até perder o lé e o cré. Na verdade, ele não me disse isso, disse apenas, rindo amarelo entre os erros – desconfiado, mas sem saber o que exatamente não ia bem – que estava ficando cada vez pior e que, bem!, não podia ficar mudo.

Os ombros pareciam querer ir em direção um ao outro, como se precisassem se encadear na frente do peito para embarreirar a saída de coisas que ele não podia esquecer. Já tinha esquecido coisas demais e agora não podia ficar mudo também. Os dedos entrecruzados com tanta força que os nós ficavam vermelhos, de tanta vergonha. Me disse que quando era jovem, não era tão ruim. Agora que estava ficando bem velho... é que tudo estava indo embora. Não era só o português, era sua própria língua também, além de todo o resto... ele riu para os joelhos. Sabe?, ele riu para mim. Eu não sabia. Eu não fazia a menor idéia. Mas achava que se eu havia entendido tudo e que se ele me entendia também, é porque as coisas não estavam tão más. Acha?, ele afrouxou os dedos. Sim. Ele deveria ter perguntado se eu compreendia. Mas essa palavra, ele já não conhecia mais.

Eu não sabia o que fazer com o senhor Kojima. Era um dos meus primeiros alunos, o único adulto e o único estrangeiro, o único com fobia de ficar mudo. O que ele mais gostava era de ler em voz alta, porque obrigava ao som e ele gostava de se ouvir dizendo palavras dos outros. Ele lembrava a primeira lição, a identificação das letras e a sonoridade das sílabas. Gostava de repetir aquilo que sabia bastante direito. E fazíamos isso sempre, para que ele ficasse contente. Apesar de a cadência das frases não ser a boa, às vezes eu deixava continuar, porque era uma cadência tão dele e porque a satisfação de cada pequeno músculo em seu rosto, por eu não tê-lo corrigido, me faziam perder o fôlego para corrigir o que quer que fosse. Eu não era uma boa professora. Compensava em cima das crianças. Com elas, era monstruosa. Nenhuma delas arriscaria esquecer a língua quando ficasse velha, porque do terrorismo nunca se esquece.

Eu quase não tinha forças para passar à interpretação do texto, porque se a sílaba e o som ainda andavam grudados nas lembranças do senhor Kojima, o som e o significado já se haviam desgrudado. Ele já não sabia o significado de muitas palavras. As palavras eram apenas som, que não faziam referência a mais nada, a não ser à sua própria voz, enquanto ele as pronunciava. Ele falava cada vez menos. Trocou bom dia por olá, olá por oi, e oi por um sorriso singelo. Tentei todo tipo clássico de pedagogia, todo tipo alternativo, jogos, pedi conselhos, falei com lingüistas, psicólogos e psiquiatras até que vi senhor Kojima esquecendo a palavra eu. Perguntei se ele ainda falava sua língua materna e ele balançou a cabeça em desentendimento. Senhor Kojima ficara surdo, também. Eu não sabia o que fazer com ele. Ele riu, dandinou a cabeça e eu entendi: é, acabei ficando mudo mesmo!

Se inclinando em reverência e agradecimento, deixou o dinheiro da última visita na minha mesa e foi embora.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Promise me you will survive

 

“Rose, you must do me this honor. Promise me you will survive” ~Jack


Foi antes da neve. Foi antes do gelo. Foi no primeiro mês do ano, quando pensamos que o pior tinha passado em novembro. O inverno não chegaria. Era seguro. Foi ali na esquina que eu a vi, Rosie. Uma pequetita, abandonadazinha, encostada como se nada fosse, do lado de fora da loja fundo-de-quintal. 40 euros com revisão, daqui meia hora? Claro! Confiei no cara com nariz de brócolis e em sua loja mequetrefe. Meia hora depois, eu tinha uma bicicleta. O cara com nariz de brócolis tinha meus 40 euros.

Uma semana depois, sentia cada vez mais dificuldade de rodar. Primeiro pensei que fosse a falta de costume, minhas pernas não estavam acostumadas a pedalar, mas eu estaria logo em forma. Depois, colocando os bofes pela boca e quase não saindo do lugar, me disse que eu tinha ido com muita esperança ao pote. Nunca fora boa na bicicleta, não seria agora que iria melhorar. Demorou mais uns dias para que eu finalmente dissesse oups. A roda traseira estava arriada.

Levei-a ao cara do nariz de brócolis. Acho que o pneu de trás está furado…. Hum… vamos tentar encher, de repente só esvaziou. Se voltar a esvaziar, traga aqui de novo. Saí, pedalando toda leve, contente, imaginando que, talvez, ao contrário do que eu pensava, um pneu pudesse se esvaziar assim sozinho mesmo, porque ele quis. Ao chegar em casa já me sentia mais pesada. Estacionei. Não tinha tempo de voltar lá, ficaria pro dia seguinte. No dia seguinte, a temperatura foi abaixo de zero e assim ficou pelas semanas por vir. Rosie ali ficou, estacionada.

 

 

Veio o vento, a chuva, o gelo, a neve.

 

 

 

Passou fevereiro. A temperatura subiu, todos começaram a voltar para cima de suas duas rodas e as bicicletas estacionadas ao lado de Rosie começaram a fazer rodízio. Era a hora. O cadeado abriu, o que já era um bom começo, depois de tanta água em todos os estados. Um cocô de passarinho bem no meio do assento. Bom agouro. Um pombo morto e estatelado no meio da rua bem em frente ao estacionamento de Rosie. Mau agouro.

Fui com Teo à Vélo Station, uma espécie de associação/atelier que compra, repara, revende e, sobretudo, ajuda as pessoas a consertarem suas bicicletas, de graça. É assim: você se afilia por €17, depois você pode chegar lá com sua bicicleta e seu problema, alguém te dá os instrumentos necessários e te diz o que fazer. E é você mesmo que faz. Smile. Eu não sou afiliada (ainda), mas aceitaram cuidar da Rosie na conta da Teo. Mireille começou a nos dizer o que fazer…

Eu tinha feito as unhas no dia anterior. Não foi sem um bocadinho de dor no coração que botei a mão na graxa pra tirar a roda. Mas o pior foi desencaixar o pneu… Depois de uns bons minutos, tiramos a câmara de ar. Dois furinhos, como duas dentadinhas. Mireille nos trouxe um produtozinho colante pra passar em cima, com o band-aid de bicicleta. Ela verificou mais uma vez o resto da câmara e pronto, lindo. Agora pra colocar a câmara de volta pra dentro do pneu… Apareceu um senhor com bigode de dono de circo pra dar uma mão masculina. Nos ajudou também a encaixar de novo o pneu na roda… e encaixar a roda na bicicleta… “Mas esse pneu é enorme!”. Só conseguimos fazê-lo ficar centralizado na quarta tentativa.

Um oleozinho aqui, outro ali, coloquei Rosie de pé. Sorrisão, dever cumprido, Rosie de volta ao tranco, eu orgulhosa por tê-la curado com as próprias mãos e as de gente muito simpática. Já ia embora quando ele mandou um olhar 43 para Rosie. A válvula da roda dianteira, tem que ver isso aí. Meu sorriso murchou. E a válvula da roda traseira, quem fez isso aí? Euh, fomos nós, disse o senhor com bigode de dono de circo, era um furo na câmara, elas consertaram e nós colocamos a roda de volta. Colocaram mal, quem tava coordenando? Mireille. Laurent quis recomeçar tudo de novo mais uma vez ainda.

Tirou as duas rodas. Mas o que houve? Veio Chantal, a presidente da associação, elas não estavam consertando essa câmara aí? Mas a válvula também tá com problema, ouve só, tá escapando ar. Ah, a válvula! É… era a Mireille que tava coordenando… Ah. Segundos depois, chegou Mireille. Mas o que houve, a gente já consertou isso aí, era um furinho.  Sim, mas é a válvula… Laurent bufando. Mas a gente já consertou, eu que coordenei, insistiu Mireille. Mas é a válvula! Ah. E Mireille foi embora. Laurent deixou a roda de trás e foi pra da frente. Olha só, a válvula tá torta, isso significa que a câmara pode estar atravessada dentro do pneu, e aí você arrisca a fazer um furo, tem que ajeitar. Ele então começou a tentar desencaixar o pneu. Mas tá fodido isso aqui! De fato, o pneu todo podre. Caraca, que pneu é esse! Passaram umas três pessoas fazendo o mesmo comentário. Ela com certeza está debaixo da chuva, não é? Laurent perguntou. Lembrei de todo vento, de toda chuva, de todo gelo e de toda neve que Rosie enfrentara nas últimas semanas, além de toda a eternidade que ela deve ter passado do lado de fora daquela loja mequetrefe, abandonadazinha, até que eu passasse para resgatá-la, por €40. Ahn… é. Tá fodido mesmo.

Ele ficou uns bons dez minutos tentando desencaixar o pneu. Chantal chamou James Potter para ajudar. Não conseguiu também. O que a gente faz? Laurent me perguntou, largando os braços em cima do pneu, meio derrotado. Dei de ombros, sem graça, já passava das 19h30 e todos estavam lá ainda só pela Rosie, em volta dela, comentando sobre o estado fodido dos seus pneus. Não sei o que fazer. Onde você comprou? Não foi aqui, né? Não, foi numa loja de bicicletas usadas ali na Place d’Islande. E quanto você pagou? 40 euros… Ah la la la la la laaaaa! Todo o atelier suspirou, levantando as sobrancelhas. E pensar que eu vendo minhas bicicletas por 35 e tá tudo em perfeito estado… lamentou Laurent. Eu odeio quem faz essas coisas com os estudantes, choramingou Chantal. James Potter balançou a cabeça tsc tsc tsc…

Bem, vamos deixar essa roda da frente assim mesmo. Se ela não te der problemas, nem pensa mais. É melhor nem pensar mais! Trocamos a câmara de ar da roda traseira por uma nova. James Potter reencaixou a roda em Rosie feito mágica. Enchemos o pneu. Bem. Enough. Dessa vez eu iria mesmo embora, com um sorriso bem menor, mas ainda ali, porque finalmente alguém tinha se importado de verdade com Rosie, mesmo que tenham acabado com toda a sua auto-estima. E além disso eu podia ir pedalando até em casa.

Agradeci a todos, coloquei meu casaco e já ia indo embora quando Mireille disse “e você mudou a válvula, não foi?” Sim, sim. E você pagou? Ai.meu.Deus. Pensei logo que a ajuda era de graça, mas que as coisas custariam os olhos da cara, pra compensar. Não, não paguei, quanto é? Pronta pra facada no coração, €20 uma câmara de ar, ou qualquer coisa assim. 1 euro e 50, ela respondeu. Quase caí pra trás, que horror ter pensado mal deles por alguns segundos! O €1,50 mais agradecido do mundo.

Estava indo embora, Laurent perguntou de novo, sombrio: E esse cara aí que te vendeu a bicicleta? Place d’Islande, né?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

De onde se vem

 

Minha geração quase não conhece os exilados políticos. Sou da geração dos exilados voluntários, daqueles que fazem intercâmbio e Erasmus. Daqueles que precisam ir embora porque ser brasileiro é abafado demais, porque precisam de um arzinho, da leveza de ser brazilian. Sempre achei que carioca é coisa linda de se ser, mas vem ser pra ver como é... É sempre mais bonito ser migrante. Para-se em qualquer lugar com uma certa dor e um certo sorriso, todos adivinham e todos perdoam, é estrangeiro... Saudade daquele bom país inventado. Daquele berço que é esplêndido aqui de fora. Daquele lugar do qual se precisa partir para se fazer as pazes, de uma birra que não se sabe mais onde começou, pra início de conversa. Não é que ele tenha me feito mal. Oh não. Mas navegar é preciso. É culpa da flecha do meu sagitário.

Ama-se melhor quando se ama de longe, agora tenho quase certeza.

Segue um texto de um amigo que traduzi esses dias. Original em italiano, aqui.

“Para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem”

Em tantas ocasiões, da minha partida de Sassari para a universidade em diante, me peguei refletindo sobre as minhas origens, sobre as minhas raízes. Isso porque vivendo fora você se dá conta que de fato o ditado “para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem” é absolutamente verdadeiro. E refletir sobre o lugar em que nasci e cresci se tornou um hábito freqüente, sobretudo quando me vi defrontando, primeiro em Padova e depois em Strasbourg, culturas e costumes diferentes dos meus.

O modo conflitante com que deixei Sassari e a Sardenha, que me fez experimentar nos primeiros meses um sincero sentimento de liberação, cansado de sofrer aquele isolamento físico, que foi tantas vezes também intelectual e cultural, sem dúvidas influenciou este meu pensar tão freqüente sobre o lugar em que vivi durante os primeiros dezoito anos da minha vida.

Dia após dia, pude reavaliar as belezas da Sardenha, as alegrias que me deu o morar na Sardenha, o afeto inato que eu desconhecia por aquelas ineficiências das quais nos queixamos, ao nos confrontarmos com realidades mais modernas. E assim aquelas ruas grosseiras, aquelas praias inalcançáveis, aquelas paisagens desoladas e privadas de vida humana, aquelas aldeias minúsculas e despovoadas, se tornaram belas recordações às quais me dedico algumas vezes, para encontrar uma paz em meio aos atropelos com outras modernidades, cujas comodidades são frequentemente elogiadas pelos sardos, em contraste com nossos atrasos.

E viver fora foi um pouco como fazer as pazes com a minha terra. Mesmo eu, que desconheço em boa parte o conceito de nostalgia, ou que pelo menos o freqüento bem pouco, me peguei provando aquela coisa que em países de língua portuguesa chama-se saudade, que alude a alguma coisa mais complexa que a nostalgia, mais profunda, que se refere ao mesmo tempo a lugares e pessoas, a momentos e lembranças. Qualquer tradução e tentativa de explicá-la será exercício em vão. Para entendê-la, deve-se prová-la.

A defrontação com os outros me enriqueceu enormemente. E o confronto me fez redescobrir também uma “sardeneza” que não pensava ter, sardeneza da qual sinto orgulho, porque anunciadora de valores sólidos de comunidade e solidariedade, teimosia e sinceridade, fraternidade e pouco jeito para negócios. Parece banal incluir essas características no ser sardo, mas é isso que se aprende quando se cresce na Sardenha. Entra no DNA. Isso não significa que somos os exclusivos detentores desses valores, mas que a soma dessas características nos torna únicos e reconhecíveis. Conheço bem a profunda compreensão, e o prazer, de quando me acontece, em outras partes da Itália e no exterior, de encontrar outros sardos.

A ilha te deixa ilhado. Isso é verdade, e preciso admitir que sofri. Adiciono também que nós, como geração jovem, não podemos prescindir de passar ao menos parte da nossa formação fora da Sardenha. Não é apenas o mercado de trabalho que o pede, porque “dá currículo” ou porque é necessário conhecer outras línguas. É sobretudo porque o mundo complexo em que vivemos nos pede para ser cidadãos do mundo, dinâmicos, prontos a responder aos desafios que nos aparecem pela frente, com respostas que não podem contemplar apenas a dimensão intelectual local ou regional.

Todavia, creio que a sardeneza que me acompanhou nesse meu viver longe da Sardenha tenha se tornado um valor agregado. Minha bagagem de valores e cultura, que procurei dividir com todos aqueles que encontrei na minha estrada, foi um excelente companheiro de viagem, apreciado por quem pôde conhecê-lo, e que me ajudou a superar as tantas dificuldades que se encontram normalmente em percursos como o meu.

Para concluir, a mensagem que eu gostaria de dar àqueles que leem essas linhas é esta: não tenham medo de procurar experiências fora da ilha, porque com isso vocês não ganham apenas enquanto profissionais do amanhã e como pessoas, mas aproveitam também para consolidar a identidade e oferecer de presente um pouco de Sardenha àqueles que encontrarem.

Considerem como um modo de fazer bem ao mundo.

Um abraço,

Paolo Costa

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Vida e morte de Godzafta

 

Começou com uma mordida. E mais outra, no mesmo lugar, porque os dentes sempre caem duas vezes na mesma mordida. Uma afta, alguns dias antes do Natal, branquinha, chatinha, mas nada demais. Daquelas comuns, que vivem seus sete dias e então morrem. Deve ter sido na ceia do dia 24, conhecendo as belezas da vida e de garrafas inteiras de champanhe, que ela se decidiu, rebelde contra sua própria natureza: sobreviverei. Foi assim que ela saboreou um delicioso prato grego no Ano Novo, carne de porco suculenta com gotinhas de limão.  Duas semanas depois, ela se regalou com a comida apimentada do árabe no cafofo mais escondido de Lisboa. As pomadas bucais indicadas na farmácia não surtiam nenhum efeito. Assim ela cresceu, firme, forte, carnuda, uma bolota vermelha. Teo a batizou de Godzafta.

Impressionada com a força sobrenatural de Godzafta, decidi levá-la ao médico. Godzafta sentiu o perigo, e se escondeu, murchou, de volta à sua forma humilde e inocente. “Oh, não é nada, é só uma afta”, disse o clínico geral, “tome isso por cinco dias”. Godzafta sobreviveu mais uma vez. Completou um mês. Minha aftazinha era já o Matusalém das aftas, Highlander do tecido epitelial, Chuck Norris, em soma. “Oh, bem, não é mais uma afta, mas não é nada de mal, vou encaminhá-la ao dermatologista”. A dermatologista olhou, mexeu e disse “Oh, não é nada de mal, vou mandá-la ao estomatô e ele vai fazer uma cirurgiazinha”.

Dr. Van Der Gucht atende num consultório anos 50, de ângulos assimétricos do teto à todos os móveis, paredes nonsense no meio do espaço, cadeiras de acrílico, quadros dadaístas, música clássica non-stop. Uma secretária de voz macia, cabelos castanhos, que me lembra muito alguém e que parece me conhecer de outro século. Um tanto kitsch, exageradamente vintage, extravagantemente macabro. Godzafta se acanhou. “Não é nada de mal, mas está muito pequeno para que eu possa fazer a intervenção cirúrgica, volte semana que vem, comece a tomar esses três remédios na véspera”.

Godzafta iria para a cadeira kitsch da morte no dia 17 de fevereiro de 2012, às 16h.

Cheguei às 15h18. Tentei me distrair com um livro, mas livros não têm me distraído mais, e Mozart estava mais alto que da primeira vez, exalando funebremente do interior do consultório à sala de espera. Como um feto que é colocado pra ouvir música clássica dentro da barriga da mãe, eu sabia que ia entrar num mundo muito sinistro.

“Boa tarde, acomode suas coisas e pode se sentar na cadeira”. Deixei meus casacos e luvas e bolsa e livro e levei Godzafta para a cadeira. Anestesia local, botox provisório. Dr. Van Der Gucht arruma suas facas e tesouras e alicates na mesinha e vai para o fundo da sala. Ouço barulho de água, de metais batendo. Dr. Van Der Gucht passa para outro compartimento da sala. Faz umas anotações. Dez minutos. Entra a secretária. Eles ajeitam a máscara, colocam as luvas e ajustam a luz no meu rosto. Dr. Van Der Gucht usa um instrumentozinho para apertar o lábio e isolar Godzafta. Então o bisturi corta Godzafta quatro vezes e a secretária limpa o sangue com a gaze. Godzafta é forte. Dr. Van Der Gucht repete o procedimento e futuca um pouquinho com a tesoura. Godzafta é puxada com a pinça e finalmente guardada para ser analisada em laboratório. Nunca mais champanhe, nunca mais porco à grega, apenas a superfície gelada de uma lâmina de vidro sob o microscópio. Eu estou ainda ali, levando dois pontos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O infeliz do dia inteiro

 

As unhas estavam horríveis. Uma quebrada, as outras grandes demais, os nós dos dedos secos e ásperos que nem lixa, cutículas brancas e pelinhas sobrando no canto dos dedos. Ela metia os dentes, e piorava. Por vezes arrancava pedaços enormes, e sangrava. Mas ela soltava um “aw!”, punha debaixo d’água e já estava. Talvez um band-aid. E também não era sempre. Não há tempo, ela dizia baixinho ao ouvido dos dedos dos pés. E depois, desculpada, sentava no sofá, deixava a cabeça ir pendendo e ia dormindo a tarde inteira. Despertava com o barulho da chave na porta, do marido que voltava do trabalho. Levava o susto habitual e saía correndo ao banheiro para tacar uma água no rosto e dizer olá, sim, o dia foi cansativo, e o seu? Ao que ele nem respondia, tomava banho, ligava a televisão para ver o jornal das sete enquanto perguntava do jantar. Ela então já estava na cozinha a esquentar tudo, a mexer nas panelas, a tirar roupas da máquina para pendurar, a dobrar outras e enfiar no armário para passar. Passava uma vassourinha no chão da cozinha, na área, ia ao corredor colocar um lixo na lixeira coletiva do prédio e quase que queima o arroz. Por pouco. Quando tocava a musiquinha do final do jornal, a mesa estava pronta, o azeite posto e a água gelada nos copos. Quanto de arroz? Três colheres, sempre três colheres, mas ela tinha que perguntar. Ele só indicava com três dedos. E frango? Sempre dois peitos. Salada? Não tive tempo de lavar a alface, nunca tinha tempo. O que você faz que nunca tem tempo pra nada? Tudo então, ali, de repente, arrebentado. A colher com o arroz não queria chegar ao prato, o reflexo dela amedrontado na tampa do fogão. Hein? O que você faz o infeliz do dia inteiro? Você acha que eu não reparo a poeira em cima dos móveis? O azulejo do banheiro todo mofado? Ela trocou o peso da perna direita para a esquerda, mas a colher de arroz continuava sem conseguir chegar ao prato e a vista estava presa em alguma maçãzinha da toalha de mão, pendurada na tampa do fogão. No corredor, a porta do elevador bateu e o cachorro da vizinha latiu. Tá, me dê o prato. E o arroz despejou no prato. E o prato despejou na mão dele. E ela finalmente despejou na cadeira. E não falaram mais nada até que ele terminou de comer e se foi para o quarto, para esperar o jornal das oito. Ela continuou sentada, esticou a mão para o copo d’água e ali estava seu dedão retalhado. O copo suava, suor antigo, de água gelada há muito tempo no calor. E o dedão, ainda mais antigo. Trocavam antiguidades o copo e o dedo, a água e ela.