segunda-feira, 9 de maio de 2011

O brinco

 

     O pai não deixava a filha furar a orelha. Bebezinha, saíra da maternidade de cara limpa. Na escola, todas as meninas da sala usavam brincos. Pendurados havia ursinhos, pedrinhas, pokémons e argolas. Ela, coitada, levava o lóbulo nu.

     O pai não a deixava furar a orelha. O corpo é feito de pontos de energia, o que faz com que todo ele seja um sistema conectado e coeso. Um furo na orelha significaria a perda de alguma outra função corporal. Se ela nascera sem furo, é porque não era pra ser furada. Além disso, dói, sangra e o escambau. Trata-se de um costume primitivo. Era estranho para o pai que a filha procurasse a dor, o pus e o escambau.

     Então a frustração dos brincos de pressão. Dos brincos adesivos...

    Aos onze anos, contudo, não deu mais. Foi escondida à farmácia e pediu a pistola. Imediatamente a dor procurada. Uma dorzinha salgada, o tempero da vitória. O metal atravessado na carne, atarraxado nalgum ponto de energia. Você é uma mulher. Pai, eu não sou mais uma menina. Eu uso brincos. Eu uso brincos porque eu escolhi.

sábado, 7 de maio de 2011

Para Maitê, da mamãe

 

“Une mère, ça fait ce que ça peut,
Ça ne peut pas tout faire, mais ça fait de son mieux”
~Lynda Lemay


  Nesse dia das mães, para a minha filha:

     Aos dezessete anos descobri que o nome da minha filha será Maitê. Não sei por quê, não lembro como descobri Maitê. Reparei depois que rima com os nomes das sobrinhas e talvez isso seja bom pra poética familiar. Não conheço nenhuma Maitê e só tinha notícias de uma, a atriz. Mas isso não influencia em nada, que eu odeio essas coisas de homenagem, e minha Maitê passará longe da Proença, de cabelos alourados, mesmo que o pai venha a ser um norueguês louro de olhos claros. O sangue é forte desse lado. Não digo que Maitê terá os cabelos pretos como os meus, mas serão certamente mais para escuros, e os olhos também, talvez meio acastanhados. Talvez não tenha os olhos puxados, mas  digo isso porque nenhum dos meus sobrinhos tem, senão seria o mais provável.

     Reparou, Maitê, estou até rimando, mas é sem querer... mãe é um bicho cafona de dar dó. Coitadinha... Ainda é um anjinho lá no céu e eu aqui a profetizar como será, que tipo de cabelo, formato de unha... É preciso que baste que tenha todos os dedinhos, e que tenha cabelos. Era só isso que eu deveria dizer. Ai Maitê... desculpa a mamãe. Ainda estou na idade de brincar de Barbie, e quando se brinca de Barbie se é muito mimada. Você será como for. O que importa é que você será um grande sorriso, desenhado na minha grande barriga planetária, e eu, sem a menor culpa, poderei finalmente dizer que sim, só me preocupo com o meu próprio umbigo.

     Ai, te juro... tentarei não te sufocar de lirismo. Não te sufocar de amor... Assim a gente não ama bem, não é? Mas gritarei, sim, gritarei. Me chame louca, eu provavelmente estarei bem louca mesmo. Desculpa por todo o chocolate que eu não te deixar comer, por todas as balas proibidas, pelos penteados constrangedores, pelos beijinhos na frente da escola, pelo controle do boletim, pelos horários de dormir, pelos castigos, por não te deixar sempre dormir na casa das suas amigas, por não querer que suas amigas durmam sempre na nossa casa, pelos presentes que eu não te der, por frear a sua avó quando ela te mimar demais. Desculpa por todos os namorados que eu talvez não te deixe ter, pelos horários de chegar em casa, por não conseguir dormir enquanto você não chegar, por insistir em te levar e te buscar de carro e te deixar sempre na porta dos lugares, por te fazer ficar sem graça – e por dizer que bobagem, menina! quando você reclamar que tô te fazendo pagar mico… Desculpa por prestar atenção às suas amizades, por às vezes querer ser sua melhor amiga, por insistir que você é linda quando você se achar horrível, por arrumar seu armário e dizer que você é bagunceira, por não saber exatamente quando você me quer por perto e quando você me quer longe, e trocar as bolas na maior parte das vezes. Desculpa por te apontar o dedo na cara e dizer que você errou, mas será necessário – ah, Maitê! Será necessário... Desculpa por chegar a pensar que você não me ama tanto assim, eu sei que ama, estou só carente. Perdoa quando eu, sem mais nenhum argumento plausível, espernear que você vai entender tudo quando for mãe também – perdoa quando eu disser não, porque alguns sins, talvez eu jamais consiga me perdoar se os disser. Perdoa também por eu tantas vezes não entender direito o que você quer me ensinar, o que só você pode me ensinar. Tem paciência com a mamãe, Maitê… Desculpa pelas milhões de outras coisas que eu farei, das quais não faço a menor idéia hoje – por tudo o que eu farei, entre erros e acertos, na esperança de que um dia você me diga obrigada, mãe. Ou não esperando mesmo nada além de uma mulher cheia de luz, para a qual eu orgulhosamente darei a primeira faísca.

     Meu amor, não posso te dizer muito agora… Te espero, quando estivermos as duas prontas. E obrigada, por me engravidar já de tanto amor. Obrigada.

 


Obrigada, Mãe
~Akemi Aoki


[1] Uma mãe, ela faz o que pode / não pode fazer tudo, mas dá o seu melhor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

everybody loves… Babies

 

    “On est né tout court avant de naître à la loi” ~ Jean François Lyotard1


      Igualdade é daquelas palavras que estufam o peito, é aquela palavra bonita de defender, que nos confere mais humanidade, mas no final todos sabemos que a minha igualdade depende do quão mais igual eu for a você, o gostosão do momento. Liberdade, igualdade e fraternidade!, grita uma mulher com o peito de fora – e ai de você se ousar meter uma burka aqui nas minhas fronteiras! Nesses dias turbulentos de “mundo árabe” e casamento gay, a polêmica dessa palavrinha fica a sassaricar por aí. Mas chega, não vou me enroscar mais em politicagens porque disso eu absolutamente nada entendo e por mais que eu seja corajosa no blog, isso já seria me encrencar demais.

     De todo modo, falem o que falem as revoluções, os livros, os socialistas, os ativistas, os humanistas, os valhamedeusistas, ninguém fala melhor do que um bebê. Ora, que contrassenso, ninguém fala melhor do que um infante, um in-fans, aquele que ainda não fala? Confirmo: ninguém evoca melhor a humanidade do que um bebê.

     Ontem tive o enorme prazer de ouvir quatro deles, na obra-prima de Thomas Balmès, “Bebês”. A sinopse já diz que ao seguir simultaneamente quatro bebês, do nascimento aos primeiros passos, na Mongólia, Namíbia, São Francisco e Tóquio, Bebês captura em filme os primeiros estágios da jornada da humanidade, que são ao mesmo tempo únicos e universais a todos nós. São três meninas e um menino, acompanhados desde a barriga da mãe até mais ou menos 1 ano, e para quem o mundo precisa abrir um espaço.

     A câmera é toda para o bebê. As mães são elementos secundários, conservatórios de leite; os pais praticamente não existem e quando aparecem fazem merda. Mais relevante que o seio materno é, evidentemente, o seio cultural. Através de diferentes espaços, lindamente fotografados, Balmès faz aparecer um mesmo chão humano. Não à toa escolheu crianças de, literalmente, quatro cantos do mundo. Aqui, as diferenças gritantes evidenciam a semelhança proporcionalmente estridente. 

     A esses bebês são oferecidos modos diversos de começar ‘the adventure of a lifetime’, mas o que eles nos oferecem de volta é uma mesma atitude primeira para estar no mundo. Antes de qualquer acostumar-se a um modo específico de viver e a alguma língua para enxergar, há o mesmo susto, o mesmo choro, o mesmo riso. O ‘oups’ dos acidentes, o choro das frustrações, a alegria do sucesso, a sobrancelha da dúvida. O mesmo estar rente ao chão, não importa se na terra ressecada ou num tapete persa, com vacas ou gatos de estimação ou os dois – temos todos a mesma cara abestalhada e nua, divertida ou apavorada,  de todo modo sempre perplexa diante de tudo, pois que tudo é deslumbramento. Não há filósofo que seja mais perplexo do que um bebê, não há poeta mais atarantado. A primeira infância é um espanto atrás do outro e é preciso realmente ser muito forte para aguentar o tranco de ser bebê. Nascemos fortíssimos e vamos murchando… Em pouquíssimo tempo fazer uma permutação entre essas crianças seria quase trágico, quem sabe o quanto essas crianças já não teriam deixado de ser simplesmente bebês e passado a ser crianças africanas, mongois, japonesas e americanas – crianças com o predicado da cultura (e potenciais adultos com o predicado da intolerância). O filme as acompanha cambalearem até o primeiro erguer-se e o primeiro caminhar, o primeiro afastar-se da terra e olhar o chão de cima, olhar para frente e não mais ao redor. O primeiro afastar-se do humano e da terra sem fronteiras e aproximar-se do Homem, das civilizações marcadas, demarcadas, cartografadas? O fim do tudo-junto-e-misturado e o começo do cada-um-no-seu-quadrado?

baby 1

      É um ponto de interrogação pessimista e broxante, mas ainda assim um ponto de interrogação que permite uma resposta confiante. Antes um ponto de interrogação que um ponto final definitivo e derradeiro. A filósofa Hannah Arendt2 tem um pensamento que me é muito querido. Diz ela que o nascimento de cada ser humano carrega potencialmente consigo um novo começo: “o milagre do aparecimento da novidade radical no mundo e a possibilidade sempre aberta da inauguração de um novo começo na história. O nascimento […] é o acontecimento inesperado que interrompe a segurança do mundo e a continuidade da história”. Nunca o corriqueiro e quase banal “as crianças são o futuro” me pareceu tão potente quanto depois de ler Arendt. Há aqui um grito coletivo pela humanidade, uma convocação a qual precisamos deixar que a infância responda. É papel dos adultos, da cultura. E este é o nó… Ajudar uma criança a crescer nunca pareceu tão dífícil.

      “Bebês” nos deixa com o primeiro erguer-se dessas crianças, que acompanha um grande ponto de interrogação. O que será delas a partir de então? Não podemos saber. Rezamos apenas para que as circunstâncias sejam favoráveis a um novo começo em direção ao bem…

     Mas me alegro de saber que elas tropeçarão ainda muitas vezes… Que tropecemos eternamente para que possamos ralar os joelhos no chão e nos lembrarmos dele, da terra que nos é comum e da humanidade que nos é infante.

baby 2


[1] “Nascemos tout-court antes de nascermos à lei”, p. 40 de LYOTARD, Jean-François. Lectures d’enfance. Paris: Galilée, 1991.

[2] ARENDT apud LARROSA, Jorge. “O enigma da infância”. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A palavra grávida

 

     Ainda sobre o angu de caroço da representação, é contraproducente apontar formas melhores ou piores de narrar. É comum que gostemos de assuntos sérios tratados com sisudez, assuntos leves escritos à pluma, assuntos áridos talhados com a secura de Guimarães e assim por diante. A forma coladinha ao conteúdo é a boa fórmula da boa literatura. Por isso também analisar literatura descolando pai e mãe não dá muito certo, o filho fica órfão e não há psicólogo que dê jeito no menino.

     Mas uma pergunta que me faço com toda humildade é – é mesmo só assim que funciona bem? É só quando a linguagem fala não só o conteúdo, mas pelo conteúdo? Não é uma pergunta retórica, é uma dúvida sincera, uma dúvida quase burra, maybe.

     Fico cismando que o ponto talvez não seja a gravidade, mas a gravidez. Não que a forma deva estar sempre “adequada” ao conteúdo (o significante é sempre arbitrário em relação ao significado?), mais importante que isso é que ela esteja grávida de um pensamento para além, que este filho possa abrir um espaço no mundo e correr.

     Não sei se me fiz entender, não sei se me entendi. Hum.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O joelho no milho

 

     Aprendemos o samba do crioulo doido da vida lá no pátio da escola, brincando de telefone sem fio. Não tem a menor graça que a mensagem chegue intacta. Que ela chegue toda torta, desfigurada, assim é que queremos, assim é que tem de ser – para que reste a graça, para que reste a dúvida. Por onde é que ela foi se perdendo, em quais ouvidos? Foi de surdez, foi de propósito? E se ela chega igualzinha à última pessoa, quem garante que a primeira – a autora da frase – não vai mentir e dizer que algo está trocado, só pelo prazer? Pelo prazer de o caminho não ter sido em vão. Também não é possível afirmar que essa primeira pessoa já não se terá esquecido a frase tão logo ela tenha completado o círculo. A memória caduca no tempo e no espaço. Aquilo que foi não retorna igual, Ulisses transfigurado.

     Que isto é é fato. Mas até onde isto pode?

     Esta é uma das pinimbas da Arte e da História diante das catástrofes da humanidade. A catástrofe e os limites de sua representação se impuseram com mais força nas discussões do meio artístico e acadêmico depois da Shoah, perfurando todo um restante de ditadores e torturados. É um discurso mais gago que o do Rei. Tão perturbador porque não encontra ginkgo biloba para a caduquice da memória, não sabe como fazer para que a mensagem não se entorte. Esta mensagem de horror não pode vagar para águas mais brandas, não pode se deixar soprar com leveza entre os ouvidos – ela precisa continuar gritando para sempre. Chamaram de irrepresentável o horror em seu limite, o horror que o corpo sentiu, mas a mente não alcança, a tortura que é incognoscível. Como representar esse irrepresentável? Como tratar o intratável que precisa e grita por ser registrado para que continue pulsando através das gerações a fim de que justamente não seja esquecido; para que não seja, principalmente, negado – para que todas as gerações por vir possam continuar dizendo “nunca mais”?

     São palavras de Milan Kundera, no popularíssimo A insustentável leveza do ser: “Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina”, até mesmo Hitler, Hiroshima, Ruanda, até mesmo – pasmem – Onze de Setembro e Osama Bin Laden. Que alegre desespero saber que nunca mais teremos Robespierre a cortar as cabeças dos franceses e nem Hitler a jogar judeus em campos de concentração, mas que teremos outros a fazerem outras coisas... A tacarem aviões em torres gêmeas, a matarem nomes terroristas (só nome, porque corpo ninguém sabe ninguém viu), a brincarem de tiro ao alvo em escolas. Nick Kristof, jornalista de guerra, resume assim essa papagaiada toda: “Se o século XX e o começo do século XXI nos ensinaram algo é que haverá uma próxima vez”. Não há nada que o tempo não cure, mas há muitas coisas que ele pode adoecer. Entre elas, a memória.

Que prejú.

     Esta é a única lição que tiramos da História? Maus alunos que oferecemos a mão à palmatória e sentimos um prazer feroz com o joelho no milho, não aprendemos muito.     

Poema do Alegre Desespero - António Gedeão

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?